segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Introspecção!!!



Hoje não sei se serei capaz de poetizar...
Filosofar talvez...
Externar minhas reticencias... essa teima em não finalizar as histórias que a vida já terminou de escrever... minha inercia diante da caneta pausada no ar... tentativa vã de evitar o pingo de tinta que desenhará o ponto final.
Meu encanto, meu espanto...
Minha filosofia poetizada...
Meu pranto disfarçado em canto...
A voz desafinada...
A melodia que perdeu a rima...
A Insonia...
A noite que agoniza...
Eu que não durmo...
Por medo talvez...
de deixar de sonhar acordada!

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Jaraguá é Guarani!

Na data de hoje (22/08/2017) o povo guarani foi despertado por mais um tiro, disparado pelos mesmos bandeirantes que sempre nos perseguiram.

O Ministro da Justiça, o Sr. Torquato Jardim, assinou uma portaria inédita de “des-declaração” da nossa Terra Indígena do Jaraguá. Enquanto a Constituição Federal diz expressamente que nossos direitos sobre nossas terras tradicionais são originários e imprescritíveis, o Ministro da Justiça diz que nossos direitos prescreveram, graças à assessoria da Sra. Azelene Inácio, uma traidora dos povos indígenas, e ao apoio do Palácio dos Bandeirantes, cujo nome já diz tudo.

O raciocínio do Ministro é de uma crueldade chocante: ele admite que no passado, por culpa do próprio governo federal nossos direitos foram ignorados, e fomos confinados em uma área de 1,7 hectare, onde vivem hoje espremidos 700 dos nossos parentes. Porém, para ele, se novamente o governo federal falhou ao ignorar o seu próprio erro por mais de 5 anos, quem deve ser punido somos nós, o povo guarani, novamente!

O parágrafo 4º do Artigo 231 da Constituição é cristalino: “As terras indígenas são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis”. A mensagem do Governo Temer também não deixa dúvidas: para eles, a Constituição Federal é letra morta, as leis que os brancos mesmos criam, só valem quando lhes convém.

A palavra dos brancos é difícil, truncada, mas nós que não temos o português como nossa língua materna, não temos dúvida que o que diz a Constituição é o mesmo que os nossos rezadores sempre disseram, é o que nos dizem as divindades, que muitos brancos não sabem ouvir: somos os primeiros habitantes dessas terras e por isso não há lei ou portaria que possa revogar nossos direitos sobre elas.

Não vamos desistir da demarcação da Terra Indígena Jaraguá, e de nenhuma das nossas terras. Nossos rezadores vão continuar trabalhando para iluminar o coração dos governantes, e buscaremos também todos os meios legais para reverter essa decisão vergonhosa do Governo Temer, que pode repercutir para muitos parentes indígenas em todo o Brasil.

Aguyjevete pra quem luta!
O Jaraguá é Guarani!
Fora Temer!!!



O Jaraguá é Guarani! Contra o Marco Temporal e a revogação de demarcações!!!

A Comissão Guarani Yvyrupa – CGY, conjuntamente com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - APIB, convoca a todos os povos indígenas e apoiadores para se somarem em um ato coletivo em defesa da demarcação das terras indígenas e contra o marco temporal no próximo dia 30/08, quarta-feira, às 17h no MASP, Av. Paulista, São Paulo/SP.

No dia 21/08, o Ministro da Justiça Torquato Jardim publicou portaria cancelando a declaração da Terra Indígena Jaraguá, de ocupação tradicional do povo guarani-mbya.


Essa medida inédita e inconstitucional é um movimento claro do Governo Temer no sentido de iniciar uma avalanche de atos para cancelar demarcações já realizadas. Mesmo após o STF, por 8 X 0, ter reafirmado o carater originário e imprescritível dos direitos indígenas sobre suas terras, Temer ainda mantém um parecer que tenta obrigar todos os órgãos federais a aplicar indistintamente a tese do marco temporal e os condicionantes que contrariam a Constituição!

Com esse ataque direto aos parentes guarani do Jaraguá, que vivem confinados em uma área de 1,7 hectare, o Governo Temer mostra claramente que sua intenção é a de cancelar por qualquer meio os processos de demarcação já aprovados pela União.
Se o Governo Temer conseguir cancelar a demarcação da Terra Indígena Jaraguá, fruto de décadas de luta do povo guarani, certamente irá atacar outros processos e tentar derrubá-los um a um para satisfazer a voracidade dos grandes latifundiários e demais negociadores do meio ambiente.

A todos que puderem se somar junto, os parentes guarani estarão mobilizados em São Paulo, na Av. Paulista (MASP), no dia 30/08, à partir das 17h.

Aos parentes que não puderem estar em São Paulo pedimos apoio para que façam também atos nas suas regiões também no mesmo dia 30/08 para: exigir do Presidente Temer a revogação do parecer no 001/2017/GAB/CGU/AGU, exigir do Ministro da Justiça a revogação da Portaria no 683 que anula a declaração da TI Jaraguá, e mostrar a todos que o Jaraguá é Guarani!

Aguyjevete pra quem luta!

Comissão Guarani Yvyrupa – CGY
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - APIB

https://www.facebook.com/yvyrupa/videos/1547546038645947/

sábado, 19 de agosto de 2017

Sobre a História do Brasil: Estão reescrevendo ao contrário!

Eu nesta minha mania de poetizar
Quis hoje olhar para a nossa história
Compor uns versinhos rimados
Fiquei a imaginar quão belas foram as histórias
Vividas por essas terras antes da invasão europeia
Guardadas pelas matas fechadas
Banhadas nas nascente dos rios
Tendo como plateia o sol escaldante
Outras vezes as estrelas e a lua!
Imagino Pajés cientistas 
Fazendo remédio de mato
Cacique organizando seu povo
Guerreiros se pintando pra caça e pra guerra
Iracemas aos milhares 
Tão belas e livres como as jaguar e as cotovias
Evas antes da maça virar falsa ciência!
E a inocência virar pecado
Tanto paradoxo que mal cabem num só poema
Dividirei então a minha prosa em duas partes
Transcrevendo um dos primeiros documentos
Sobre essas terras chamadas primeiro de Ilha
Depois de Santa Cruz
Por fim Brasil!

Carta de Pero Vaz de Caminha
Senhor,
posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer!

Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.

Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza -- porque o não saberei fazer -- e os pilotos devem ter este cuidado.

E portanto, Senhor, do que hei de falar começo:

E digo quê:

A partida de Belém foi -- como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.

Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para poder ser !

Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras partes. Mas... não apareceu mais !

E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha -- segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas -- os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.

Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!

Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. E ao sol-posto umas seis léguas da terra, lançamos ancoras, em dezenove braças -- ancoragem limpa. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante -- por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove braças -- até meia légua da terra, onde todos lançamos ancoras, em frente da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos.

E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.

Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.

Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.

À noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus. E especialmente a Capitaina. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar ancoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados na popa, em direção norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nós ficássemos, para tomar água e lenha. Não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui. E quando fizemos vela estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali aos poucos. Fomos ao longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.

E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes de sol-pôsto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças.

E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa.

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.

Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.

O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.

Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.

Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.

Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora.

Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais.

Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.

Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.

Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, por que lho não havíamos de dar! E depois tornou as contas a quem lhas dera. E então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas.

O Capitão mandou pôr por baixo da cabeça de cada um seu coxim; e o da cabeleira esforçava-se por não a estragar. E deitaram um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram.

Sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e tinha seis a sete braças de fundo. E entraram todas as naus dentro, e ancoraram em cinco ou seis braças -- ancoradouro que é tão grande e tão formoso de dentro, e tão seguro que podem ficar nele mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus foram distribuídas e ancoradas, vieram os capitães todos a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão que Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias fossem em terra e levassem aqueles dois homens, e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar a cada um uma camisa nova e uma carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que foram levando nos braços, e um cascavel e uma campainha. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo perto de duzentos homens, todos nus, com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levamos acenaram-lhes que se afastassem e depusessem os arcos. E eles os depuseram. Mas não se afastaram muito. E mal tinham pousado seus arcos quando saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles. E saídos não pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem mais correria. E passaram um rio que aí corre, de água doce, de muita água que lhes dava pela braga. E muitos outros com eles. E foram assim correndo para além do rio entre umas moitas de palmeiras onde estavam outros. E ali pararam. E naquilo tinha ido o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá. Mas logo o tornaram a nós. E com ele vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças.

E então se começaram de chegar muitos; e entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam. E traziam cabaças d'água, e tomavam alguns barris que nós levávamos e enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem a bordo do batel. Mas junto a ele, lançavam-nos da mão. E nós tomávamo-los. E pediam que lhes dessem alguma coisa.

Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, e a outros uma manilha, de maneira que com aquela encarna quase que nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapuças de linho, e de qualquer coisa que a gente lhes queria dar.

Dali se partiram os outros, dois mancebos, que não os vimos mais.

Dos que ali andavam, muitos -- quase a maior parte --traziam aqueles bicos de osso nos beiços.

E alguns, que andavam sem eles, traziam os beiços furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos, a saber um no meio, e os dois nos cabos.

E andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, um tanto azulada; e outros quartejados d'escaques.

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.

Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbana deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém. Acenamos-lhes que se fossem. E assim o fizeram e passaram-se para além do rio. E saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris d'água que nós levávamos. E tornamo-nos às naus. E quando assim vínhamos, acenaram-nos que voltássemos. Voltamos, e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles, o qual levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá houvesse. Não trataram de lhe tirar coisa alguma, antes mandaram-no com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, que lhe desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo, em vista de nós, a aquele que o da primeira agasalhara. E então veio-se, e nós levamo-lo.

Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por galanteria, cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia seteado como São Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós.

E com isto nos tornamos, e eles foram-se.

À tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, perto da praia. Mas ninguém saiu em terra, por o Capitão o não querer, apesar de ninguém estar nela. Apenas saiu -- ele com todos nós -- em um ilhéu grande que está na baía, o qual, aquando baixamar, fica mui vazio. Com tudo está de todas as partes cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir, a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele, e todos nós, bem uma hora e meia. E pescaram lá, andando alguns marinheiros com um chinchorro; e mataram peixe miúdo, não muito. E depois volvemo-nos às naus, já bem noite.

Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.

Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção.

Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias -- duas ou três que lá tinham -- as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.

Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para o entregar a eles. E nós todos trás dele, a distância de um tiro de pedra.

Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não os punham.

Andava lá um que falava muito aos outros, que se afastassem. Mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava no meio deles, sem implicarem nada com ele, e muito menos ainda pensavam em fazer-lhe mal. Apenas lhe davam cabaças d'água; e acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.

Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e sermão, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Enquanto lá estávamos foram alguns buscar marisco e não no acharam. Mas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso; que em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e de amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E depois de termos comido vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor, com os quais ele se aportou; e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber, por irmos na nossa viagem.

E entre muitas falas que sobre o caso se fizeram foi dito, por todos ou a maior parte, que seria muito bem. E nisto concordaram. E logo que a resolução foi tomada, perguntou mais, se seria bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui em lugar deles outros dois destes degredados.

E concordaram em que não era necessário tomar por força homens, porque costume era dos que assim à força levavam para alguma parte dizerem que há de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens desses degredados que aqui deixássemos do que eles dariam se os levassem por ser gente que ninguém entende. Nem eles cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam quando cá Vossa Alteza mandar.

E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui os dois degredados quando daqui partíssemos.

E assim ficou determinado por parecer melhor a todos.

Acabado isto, disse o Capitão que fôssemos nos batéis em terra. E ver-se-ia bem, quejando era o rio. Mas também para folgarmos.

Fomos todos nos batéis em terra, armados; e a bandeira conosco. Eles andavam ali na praia, à boca do rio, para onde nós íamos; e, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos, e acenaram que saíssemos. Mas, tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais ancho que um jogo de mancal. E tanto que desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. E alguns aguardavam; e outros se afastavam. Com tudo, a coisa era de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho, e por qualquer coisa que lhes davam. Passaram além tantos dos nossos e andaram assim misturados com eles, que eles se esquivavam, e afastavam-se; e iam alguns para cima, onde outros estavam. E então o Capitão fez que o tomassem ao colo dois homens e passou o rio, e fez tornar a todos. A gente que ali estava não seria mais que aquela do costume. Mas logo que o Capitão chamou todos para trás, alguns se chegaram a ele, não por o reconhecerem por Senhor, mas porque a gente, nossa, já passava para aquém do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas, daquelas já ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, de tal maneira que os nossos levavam dali para as naus muitos arcos, e setas e contas.

E então tornou-se o Capitão para aquém do rio. E logo acudiram muitos à beira dele.

Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma.

Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina, atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum.

Em seguida o Capitão foi subindo ao longo do rio, que corre rente à praia. E ali esperou por um velho que trazia na mão uma pá de almadia. Falou, enquanto o Capitão estava com ele, na presença de todos nós; mas ninguém o entendia, nem ele a nós, por mais coisas que a gente lhe perguntava com respeito a ouro, porque desejávamos saber se o havia na terra.

Trazia este velho o beiço tão furado que lhe cabia pelo buraco um grosso dedo polegar. E trazia metido no buraco uma pedra verde, de nenhum valor, que fechava por fora aquele buraco. E o Capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do Capitão para lha meter. Estivemos rindo um pouco e dizendo chalaças sobre isso. E então enfadou-se o Capitão, e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho; não por ela valer alguma coisa, mas para amostra. E depois houve-a o Capitão, creio, para mandar com as outras coisas a Vossa Alteza.

Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa. Ao longo dele há muitas palmeiras, não muito altas; e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles.

Depois tornou-se o Capitão para baixo para a boca do rio, onde tínhamos desembarcado.

E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais montezes, e foram-se para cima.

E então passou o rio o Capitão com todos nós, e fomos pela praia, de longo, ao passo que os batéis iam rentes à terra. E chegamos a uma grande lagoa de água doce que está perto da praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água por muitos lugares.

E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles meter-se entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão que Bartolomeu Dias matou. E levavam-lho; e lançou-o na praia.

Bastará que até aqui, como quer que se lhes em alguma parte amansassem, logo de uma mão para outra se esquivavam, como pardais do cevadouro. Ninguém não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais. E tudo se passa como eles querem -- para os bem amansarmos !

Ao velho com quem o Capitão havia falado, deu-lhe uma carapuça vermelha. E com toda a conversa que com ele houve, e com a carapuça que lhe deu tanto que se despediu e começou a passar o rio, foi-se logo recatando. E não quis mais tornar do rio para aquém. Os outros dois o Capitão teve nas naus, aos quais deu o que já ficou dito, nunca mais aqui apareceram -- fatos de que deduzo que é gente bestial e de pouco saber, e por isso tão esquiva. Mas apesar de tudo isso andam bem curados, e muito limpos. E naquilo ainda mais me convenço que são como aves, ou alimárias montezinhas, as quais o ar faz melhores penas e melhor cabelo que às mansas, porque os seus corpos são tão limpos e tão gordos e tão formosos que não pode ser mais! E isto me faz presumir que não tem casas nem moradias em que se recolham; e o ar em que se criam os faz tais. Nós pelo menos não vimos até agora nenhumas casas, nem coisa que se pareça com elas.

Mandou o Capitão aquele degredado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. E foi; e andou lá um bom pedaço, mas a tarde regressou, que o fizeram eles vir: e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas; e não lhe tomaram nada do seu. Antes, disse ele, que lhe tomara um deles umas continhas amarelas que levava e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo após ele, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de feteiras muito grandes, como as de Entre Douro e Minho. E assim nos tornamos às naus, já quase noite, a dormir.

Segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos; mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos. E estiveram um pouco afastados de nós; mas depois pouco a pouco misturaram-se conosco; e abraçavam-nos e folgavam; mas alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa. E de tal maneira se passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles para onde outros muitos deles estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, uns verdes, outros amarelos, dos quais creio que o Capitão há de mandar uma amostra a Vossa Alteza.

E segundo diziam esses que lá tinham ido, brincaram com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas, outros de metades, outros de tanta feição como em pano de ras, e todos com os beiços furados, muitos com os ossos neles, e bastantes sem ossos. Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que na cor queriam parecer de castanheiras, embora fossem muito mais pequenos. E estavam cheios de uns grãos vermelhos, pequeninos que, esmagando-se entre os dedos, se desfaziam na tinta muito vermelha de que andavam tingidos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.

Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas.

Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos.

E o Capitão mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados que fossem meter-se entre eles; e assim mesmo a Diogo Dias, por ser homem alegre, com que eles folgavam. E aos degredados ordenou que ficassem lá esta noite.

Foram-se lá todos; e andaram entre eles. E segundo depois diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitaina. E eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoável altura; e todas de um só espaço, sem repartição alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E de baixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma numa extremidade, e outra na oposta. E diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que lhes deram de comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame, e outras sementes que na terra dá, que eles comem. E como se fazia tarde fizeram-nos logo todos tornar; e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda, segundo diziam, queriam vir com eles. Resgataram lá por cascavéis e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las há de mandar, segundo ele disse. E com isto vieram; e nós tornamo-nos às naus.

Terça-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e metê-las nos batéis. E lutavam com os nossos, e tomavam com prazer. E enquanto fazíamos a lenha, construíam dois carpinteiros uma grande cruz de um pau que se ontem para isso cortara. Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais para verem a ferramenta de ferro com que a faziam do que para verem a cruz, porque eles não tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.

E o Capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e que de modo algum viessem a dormir às naus, ainda que os mandassem embora. E assim se foram.

Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra. Todavia os que vi não seriam mais que nove ou dez, quando muito. Outras aves não vimos então, a não ser algumas pombas-seixeiras, e pareceram-me maiores bastante do que as de Portugal. Vários diziam que viram rolas, mas eu não as vi. Todavia segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infinitas espécies, não duvido que por esse sertão haja muitas aves!

E cerca da noite nós volvemos para as naus com nossa lenha.

Eu creio, Senhor, que não dei ainda conta aqui a Vossa Alteza do feitio de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos, e as setas compridas; e os ferros delas são canas aparadas, conforme Vossa Alteza verá alguns que creio que o Capitão a Ela há de enviar.

Quarta-feira não fomos em terra, porque o Capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia, muitos, segundo das naus vimos. Seriam perto de trezentos, segundo Sancho de Tovar que para lá foi. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capitão ontem ordenara que de toda maneira lá dormissem, tinham voltado já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. E traziam papagaios verdes; e outras aves pretas, quase como pegas, com a diferença de terem o bico branco e rabos curtos. E quando Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam vir com ele, alguns; mas ele não admitiu senão dois mancebos, bem dispostos e homens de prol. Mandou pensar e curá-los mui bem essa noite. E comeram toda a ração que lhes deram, e mandou dar-lhes cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noite. E não houve mais este dia que para escrever seja.

Quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E em querendo o Capitão sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas, e veio-lhe comida. E comeu. Os hóspedes, sentaram-no cada um em sua cadeira. E de tudo quanto lhes deram, comeram mui bem, especialmente lacão cozido frio, e arroz. Não lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.

Acabado o comer, metemo-nos todos no batel, e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta. E logo que a tomou meteu-a no beiço; e porque se lhe não queria segurar, deram-lhe uma pouca de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adereço da parte de trás de sorte que segurasse, e meteu-a no beiço, assim revolta para cima; e ia tão contente com ela, como se tivesse uma grande jóia. E tanto que saímos em terra, foi-se logo com ela. E não tornou a aparecer lá.

Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir. E parece-me que viriam este dia a praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta. Alguns deles traziam arcos e setas; e deram tudo em troca de carapuças e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos, e alguns deles bebiam vinho, ao passo que outros o não podiam beber. Mas quer-me parecer que, se os acostumarem, o hão de beber de boa vontade! Andavam todos tão bem dispostos e tão bem feitos e galantes com suas pinturas que agradavam. Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mil boas vontades, e levavam-na aos batéis. E estavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós estávamos entre eles.

Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até um ribeiro grande, e de muita água, que ao nosso parecer é o mesmo que vem ter à praia, em que nós tomamos água. Ali descansamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dele, entre esse arvoredo que é tanto e tamanho e tão basto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras, de que colhemos muitos e bons palmitos.

Ao sairmos do batel, disse o Capitão que seria bom irmos em direitura à cruz que estava encostada a uma árvore, junto ao rio, a fim de ser colocada amanhã, sexta-feira, e que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. E a esses dez ou doze que lá estavam, acenaram-lhes que fizessem o mesmo; e logo foram todos beijá-la.

Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E portanto se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que não foi sem causa. E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da salvação deles. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim!

Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.

Nesse dia, enquanto ali andavam, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que nós seus. Se lhes a gente acenava, se queriam vir às naus, aprontavam-se logo para isso, de modo tal, que se os convidáramos a todos, todos vieram. Porém não levamos esta noite às naus senão quatro ou cinco; a saber, o Capitão-mor, dois; e Simão de Miranda, um que já trazia por pagem; e Aires Gomes a outro, pagem também. Os que o Capitão trazia, era um deles um dos seus hóspedes que lhe haviam trazido a primeira vez quando aqui chegamos -- o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão; e foram esta noite mui bem agasalhados tanto de comida como de cama, de colchões e lençóis, para os mais amansar.

E hoje que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz, para melhor ser vista. E ali marcou o Capitão o sítio onde haviam de fazer a cova para a fincar. E enquanto a iam abrindo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, rio abaixo onde ela estava. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam, à frente, fomos trazendo-a dali, a modo de procissão. Eram já aí quantidade deles, uns setenta ou oitenta; e quando nos assim viram chegar, alguns se foram meter debaixo dela, ajudar-nos. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos colocá-la onde havia de ficar, que será obra de dois tiros de besta do rio. Andando-se ali nisto, viriam bem cento cinqüenta, ou mais. Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelho assim como nós. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção.

Estiveram assim conosco até acabada a comunhão; e depois da comunhão, comungaram esses religiosos e sacerdotes; e o Capitão com alguns de nós outros. E alguns deles, por o Sol ser grande, levantaram-se enquanto estávamos comungando, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles que ficaram. Esse, enquanto assim estávamos, juntava aqueles que ali tinham ficado, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles, falando-lhes, acenou com o dedo para o altar, e depois mostrou com o dedo para o céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos!

Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima, e ficou na alva; e assim se subiu, junto ao altar, em uma cadeira; e ali nos pregou o Evangelho e dos Apóstolos cujo é o dia, tratando no fim da pregação desse vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, que nos causou mais devoção.

Esses que estiveram sempre à pregação estavam assim como nós olhando para ele. E aquele que digo, chamava alguns, que viessem ali. Alguns vinham e outros iam-se; e acabada a pregação, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda. E houveram por bem que lançassem a cada um sua ao pescoço. Por essa causa se assentou o padre frei Henrique ao pé da cruz; e ali lançava a sua a todos -- um a um -- ao pescoço, atada em um fio, fazendo-lha primeiro beijar e levantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançavam-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta. E isto acabado -- era já bem uma hora depois do meio dia -- viemos às naus a comer, onde o Capitão trouxe consigo aquele mesmo que fez aos outros aquele gesto para o altar e para o céu, (e um seu irmão com ele). A aquele fez muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca; e ao outro uma camisa destoutras.

E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.

Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior -- com respeito ao pudor.

Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se se convertera, ou não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação.

Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer.

Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficarão mais dois grumetes, que esta noite se saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. E cremos que ficarão aqui porque de manhã, prazendo a Deus fazemos nossa partida daqui.

Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos -- terra que nos parecia muito extensa.

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!

Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!

E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.

E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro -- o que d'Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.
Pero Vaz de Caminha.



Depois de escrita a brilhante Carta
Sob a Égide da Cruz
Empunhada por Bandeirantes
Tudo por aqui foi profanado
O Guerreiro perseguido e aprisionado
A índia violada no seu corpo e na sua´lma 
As florestas devastadas para roubar Pau Brasil
E colorir (da cor de sangue) as roupas do mundo "civilizado".
Vermelho também era o sangue que tingiu os navios negreiros
Homens, mulheres e crianças sequestrados e aqui escravizados
Sonhos e vidas usurpadas
Tudo em nome da "Ordem e do Progresso"
Escrito bem no centro da bandeira da nossa pátria
No lugar do nativo livre o africano escravo
As florestas deram lugar ao plantio do café e da cana
Do tronco se ouviu mais que o gemido de dor
A voz do chicote foi respondida com o som do atabaque
E nos terreiros se viu orixás dançar
E muito capitão do mato na capoeira tombar
Em Palmares e por todo o território
Quilombos se levantaram
A Resistência forçou a princesa a assinar a lei Áurea
(ainda que fosse uma farsa)
Precedeu a Independência
(que ao povo não libertou)
E o Brasil virou Republica
Escreveu uma Carta Magna
A democracia foi exaltada
Depois pelos Militares amordaçada
O povo pegou em armas
Mas sangue inocente foi derramado
Vidas ceifadas, mas as fardas recuaram
Teve Assembleia Constituinte
E muitos direitos foram assegurados
Partidos Políticos foram fundados
A sociedade se organizou em entidades e sindicatos
O Brasil foi chamado de emergente
Pagou a Divida Externa
Fez programas para erradicar a miséria
Investiu em educação (Não o bastante é verdade)
Ampliou vagas nas Universidades
Parecia caminhar para o futuro
... ... ...
Foi quando apareceu Um Pato  Inflável 
Grande gordo alimentado pelos ricos empresários
E o guá, guá, guá capitalista subjugou a consciência de classe
Lá se foi a democracia
Tomaram o poder 
Não por força de armas bélicas 
Pela  mais perigosa de todas as armas
A Ideologia excludente e reacionária.
Com o lema "uma ponte para o futuro"
Estamos vendo (não caladas) 
Nossa história sendo arbitrariamente
Reescrita ao contrário!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

16 de Agosto Dia do filósofo: Onde estão as filósofas?



Neste dia do Filósofo, é pertinente a pergunta: Onde estão as filósofas? A que poderíamos responder estão por todas as partes, ainda que a voz masculina se queira preponderante, visto que, a sociedade ainda não superou a herança patriarcal transmitida de geração a geração.


De modo que ao lançarmos um olhar mais cuidadoso sobre a história da filosofia, notamos a sutileza com que a presença feminina vai sendo ofuscada e muitas vezes reduzida a um papel secundário, não raras vezes vamos encontrar mulheres mencionadas como: discípulas, amantes, esposas e com menor frequência colaboradoras. Somente a partir da década de 60 com os avanços da luta feminista é que a história começa a registrar os primeiros casos de protagonismo das inúmeras filósofas que fazem parte da história.

Recorro ao riquíssimo trabalho MULHER E FILOSOFIA: ONDE ESTÃO AS FILÓSOFAS? De autoria da professora Juliana Pacheco Borges da Silva para trazer à luz o fazer filosófico de algumas das principais mulheres que ousaram pisar esse campo e deixar suas marcas tão profundamente que nenhuma ideologia machista pode apagar.

Sendo impossível enumerar todas as filósofas, Silva elegeu três grandes nomes femininos para cada período filosófico:

ANTIGUIDADE

Safo de Lesbos (VII-VI a. C.) conhecida por lidar diretamente com as artes poéticas e musicais, criou um ambiente para que as mulheres pudessem desenvolver suas habilidades artísticas;

Diotima de Mantineia (427-347 a. C.) é conhecida pelos diálogos platônicos sobre o amor, mais especificamente no O Banquete. Como só encontramos a presença dessa filósofa nos escritos de Platão, há dúvidas de sua existência, mas como teve uma marcante presença na obra desse filósofo, podemos nos direcionar a favor do existir;
Hipácia de Alexandria (415 d. C.) foi uma filósofa e grande conhecedora de Matemática e Astronomia. Ela foi professora na Academia de Alexandria, substituindo o filósofo Plotino.
IDADE MEDIA:
Heloísa de Paráclito (1101-1164) mais conhecida por sua relação escandalosa e conturbada com Abelardo, que era casado. Também se destacava por sua dedicação e inteligência. Assim, sendo reconhecida como possuidora do dom a escrita e leitura, escrevendo Problemata;
Catarina de Siena (1347-1380) foi uma líder italiana de uma comunidade heterodoxa de homens e mulheres. Também escreveu Diálogo da Doutrina Divina;
Cristina de Pizan (1365-1431) foi uma filósofa poetisa, que ficou conhecida por criticar a misoginia dentro do meio literário. Na sua obra A Cidade das Mulheres, ela questiona a autoridade masculina de seu tempo.
IDADE MODERNA
Mary Astell (1666-1731) foi uma inglesa que uniu todas suas convicções as causas feministas;
Mary Wollstonecraft (1739-1797) foi uma escritora e filósofa inglesa, ficando conhecida pelas suas defesas aos direitos das mulheres. Sua obra A Reivindicação dos Direitos das Mulheres, é considerada como uma das mais importantes.
Olímpia de Gouges (1748-1793) foi uma francesa que Se destacou pelos seus escritos revolucionários em defesa das mulheres e dos negros. Uma de suas obras em destaque é Os Direitos da Mulher e Cidadã.
IDADE CONTEMPORÂNEA
Rosa Luxemburgo (1871-1919) foi uma filósofa marxista, que se tornou mundialmente conhecida por suas ações revolucionárias e por fundar o Partido Social-Democrata (SPD) da Polônia e Lituânia. Escreveu diversas obras todas ligadas as questões da economia capitalista e o proletariado. Dentre elas se destacam, Acumulação do Capital, Greve de Massas, Partidos e Sindicatos, entre outras;
Hannah Arendt (1906-1975) foi uma filósofa alemã de família judia. Seus estudos se deram dentro da ciência política. Ela foi uma das poucas filósofas que não chegou a escrever sobre a condição feminina. Suas obras se enquadravam dentro da filosofia política, seu primeiro livro foi intitulado como As Origens do Totalitarismo;
Simone de Beauvoir (1908-1986) foi uma escritora e filósofa francesa, ficando conhecida como companheira de Sartre e por utilizar de seu existencialismo em suas obras. Destacou-se nas questões feministas, principalmente quando lançou seu famoso livro O Segundo Sexo, o qual se tornou fundamental para qualquer feminista que quisesse compreender as questões das mulheres e de sua existência.
Estas mulheres representam aqui todas àquelas que fizeram parte da história da filosofia. “A tarefa que nos cabe atualmente é fazer valer a presença destas mulheres que por muitos anos foram e ainda são ocultadas. Devemos deixar essas vozes gritarem, já que passaram um bom tempo silenciadas”.
A Filosofia Brasileira também tem suas representantes femininas, seguindo o modelo anterior vou aqui eleger três mulheres contemporâneas que estão ainda a escrever suas histórias no campo filosófico.
Marilena Chauí (São Paulo, 04 de setembro de 1941) Marilena é Presidente da Associação Nacional de Estudos Filosóficos do século XVII, Doutora Honoris Causa pela Universidade de Paris VIII e Doutora Honoris Causa pela Universidad Nacional de Córdoba, da Argentina. Em sua obra é possível encontrar temas como ideologia, cultura, universidade pública, entre outros. Destacam-se os livros Repressão Sexual, Da Realidade sem Mistérios ao Mistério do Mundo, Introdução à História da Filosofia, Convite à Filosofia, A Nervura do Real, Simulacro e poder, entre outros.
Viviane Mosé ( Vitória, 16 de janeiro de 1964) Filósofa, poetisa, e especialista em elaboração e implementação de políticas públicas. Mestre e doutora em filosofia, tem diversos livros escritos.
Márcia Angelita Tiburi (Vacariam 6 de abril de 1970) Filosofa, artista plástica, professora de filosofia. Publicou livros de filosofia, entre eles Magnólia, que foi finalista do Prêmio Jabuti e A Mulher de Costas. Escreve também para jornais e revistas especializados, assim como para a grande imprensa. Seu livro Como Conversar com Um Fascista, publicado pela Editora Record, fala sobre temas como genocídio indígena, racismo e classismo, homofobia, feminicídio e manipulação de crianças.

Por fim, exalto e homenageio neste 16 de agosto todas as filósofas e abraço fraternalmente na pessoa dos Professores Filósofos Aldo Santos, presidente da APROFFIB (Associação dos Professores (as) de Filosofia e Filósofos(as) do Brasil) e Chico Glitter presidente da APROFFESP (Associação dos Professores(as) de Filosofia e Filósofos(as) do estado de São Paulo). Todos os Filósofos que rejeitaram a “herança maldita do patriarcado” e constroem o pensamento crítico para além da questão de gênero, defendendo uma sociedade igualitária, sem mordaça onde impere princípios éticos. Bem como o necessário Ensino da Filosofia em todas as modalidades da educação.



Sobre a Liberdade Tupiniquim: o discurso de emancipação/libertação e as correntes que nos prendem - caminhos para a Revolução Brasileira.

Por: Hugo Allan Matos

“Não temais o avanço do ódio, da intolerância, do preconceito...tudo isso é apenas o medo de quem está no poder ou com ele se identifica, de reconhecer que chegou um tempo de mudanças profundas e estruturais, qual é inevitável, se ainda quisermos sobreviver enquanto espécie”
Há a meu ver, um limite histórico em grande parte do discurso de emancipação (libertação/liberdade, etc.) no Brasil. Qual seja: durante a década de 1980 grande parte dessas forças aqui no Brasil, empenharam-se na construção do partido dos Trabalhadores (PT), alinhadas pela ideia do socialismo. Após 1987 (houve a frustração geral no PT com o projeto socialista e um autoconvencimento interno da necessidade de táticas capitalistas para ganhar as eleições e alçar à chegada ao poder) e sobretudo após 1989, com a queda do Muro de Berlim, muitas pessoas frustraram-se e foram fazer outras coisas.
Mas daquelas que permaneceram ligadas ao partido, ao menos as lideranças que em 2002 estavam no auge do partido, foram as que de 1987 a 2002 fizeram um giro ideológico no PT. Giro ideológico esse que assumindo uma herança paternalista e fatalista passam a disputar a hegemonia do poder nas eleições e na base construída até então e deixaram de renovar, atualizar, seu discurso nas bases, ou seja, não atualizaram sua discussão sobre projeto político e assumiram exclusivamente a luta pelo poder, no embalo de toda a discussão realizada até 1987. E em consonância com a burguesia nacional, sonham uma "social democracia" à la tupiniquim, em que o povo melhore sua qualidade de vida e os ricos fiquem mais ricos.
A parte que mesmo com este processo, insistiram em continuar revisando suas teorias e abandonar tanto o PT, quanto o ideal socialista-real (ou científico) fundaram outros movimentos, partidos, etc (como o PSOL), mas também, em grande parte, não foram às bases, partiram do acúmulo histórico, inclusive da linguagem, significações e sentidos acumulados até então, o que gerou um fenômeno que mesmo que tentassem (e algumas tentaram e tentam) ir às bases, o discurso está demasiado descolado da realidade do povo brasileiro.
Um terceiro movimento, dentre os três grandes que quero citar, que não reconheceu a queda do Muro de Berlim e quer implantar o socialismo mundial ainda hoje, não tendo passado pela discussão do "capitalismo dependente" e do "sistema mundo", ainda sonham com a Revolução Socialista Mundial e choram a morte dos camaradas Lênim, Trotsky e Stalim (e trabalham uns contra os outros para discutir dentro deste bloco quem será o Responsável, a Vanguarda Revolucionária, ou quem levará o mérito e imporá sua ideologia ao processo histórico revolucionário).
Há em comum, nestas três grandes frentes de libertadores e libertadoras um mesmo equívoco: afastaram-se das bases populares e consideraram apenas a luta pela hegemonia do poder institucional-eleitoral. Não renovaram, em grande parte sua teoria e não alcançaram mais "a massa", trazendo para suas fileiras apenas as pessoas que historicamente identificam-se com seu discurso corrompido, pelo poder.
Nenhuma dessas três frentes, com raríssimas exceções, a meu ver, compreendeu a ruptura com o contrato social, em 2013, onde grande parte do povo brasileiro foi às ruas comunicar sua não concordância com o atual estado das coisas. A direita conseguiu compreender a isso e impor-se, junto às massas, significando 2013 a partir do "inconsciente coletivo reacionário" dando esperanças de voltar a um lugar político confortável, capitanearam a hegemonia daquela explosão de rompimento e conseguiram forjar uma consciência unívoca que demonizou o PT e à esquerda, impondo-se e conquistando a hegemonia e o poder para a implantação do velho sonho neoliberal que nos rondava desde 1987 e foi implantando-se aos poucos, pelas arestas, a partir do árduo trabalho dos filhotes da ditadura e dos "capitães do mato" entreguistas que desde lá vêm resistindo, reacionando, e entregando tudo o que podem de nosso país, a nosso  senhor, os EUA, desde o Consenso de Washington, que agora parece estar totalmente implantado ou em vias de.
O povo (pessoas que vão tomando a consciência dos processos políticos, ainda que por intuição, sensibilidade), percebendo-se usado por essa direita golpista e entreguista e/ou sem nenhuma identificação com os (não)projetos das esquerdas fragmentadas, participa do que acham que pode ajudar em algo, a partir de seu cotidiano a cada dia mais miserável, no qual lutam por sua subsistência, desacreditadas de qualquer possibilidade de libertação.
"A massa" faz o que sempre fez: o que é mais fácil, que causa menos dor, aderem inconscientemente aos discursos de alienação e dominação, dado que é o que lhes resta é a fatalidade deste processo político até que alguém MOSTRE caminhos melhores.
Ao povo, se ganha com ideias, à massa, com testemunho. Quando as ideias de um projeto logicamente possível vão transformando-se em ação concreta, histórica (e portanto que supere este processo qual o povo já está ciente e recusou) a começar pela unidade das esquerdas em um verdadeiro projeto político nacional, revolucionário que mude o atual estado das coisas, em um país melhor, mais justo e solidário, a começar desde baixo, mostrando as possibilidades das reformas de base, desde o povo, fazendo com que voltemos primeiro a acreditar em nós mesm@s, nos vendo como comunidade, como povo, como nação.
Até aqui, grande parte da esquerda segue, apesar de o discurso de libertação, presa nos conceitos e categorias iluministas, positivistas, dialéticas... do séc. XX, quais levam a uma culpabilização do povo – e sem distinguir povo de massa – e olhando apenas para o poder institucional, esquecendo-se que qualquer poder, em qualquer momento histórico tem uma única fonte, uma única nascente: o povo! O povo é o único sujeito revolucionário, é o povo que faz qualquer revolução possível. E veja, que aqui chamo de revolução as reformas estruturais de base, plurinacionais.
Uma outra forte corrente que nos prende é a massificação conceitual, também advinda das categorias e conceitos do séc. XX, quais não servem para a plurinacionalidade latino-americana. É preciso reconhecer que no Brasil, temos várias nações, vários povos com suas especificidades etnológicas, cada qual com seu ethos, ainda que possamos nos ver como um país. É preciso ainda, reconhecermos que nossas diferenças culturais, sociais e políticas, não se separam, por isso é preciso um projeto político em que todas estas diferenças caibam. Nos quais as liberdades individuais de cada pessoa e de todas as pessoas, sejam respeitadas. E portanto, se vislumbre múltiplas possibilidades econômicas, de organização social e política. Cada povo tem direito a organizar-se de sua forma, a se realizar como tal e um projeto libertador deve permitir e potencializar que isso ocorra. Portando, a meu ver, o próximo projeto político de libertação, não pode ser como os anteriores: libertação de algumas pessoas e submissão de outras. Precisa ser um projeto de libertação de cada pessoa e de TODAS as pessoas. Precisamos chegar à conclusão que a libertação da mulher, deve ser também a libertação do homem. A libertação do negro, da negra, deve ser a libertação do branco. A libertação da juventude, precisa ser a libertação dos que praticam o juvenicídio...
As revoluções do séc. XXI serão transculturais, diversas, complexas, plurais... Os projetos políticos não serão totalizantes, fechados, mas possibilitarão a identificação de cada pessoa e de todas. Serão projetos de reivindicações hegemônicas nos quais cada movimento, cada pessoa se veja representada. Serão projetos éticos, de alteridade, de sustentabilidade real, de bem-viver.
A Revolução Brasileira pode ser a vitória de um Projeto Político de amor à humanidade. À verdadeira humanidade, uma nova humanidade.

Hugo Allan Matos

domingo, 13 de agosto de 2017

Dia 11 de Agosto dia do Estudante!

Os estudantes brasileiros neste 11 de Agosto de 2017 infelizmente não tem muito a comemorar, visto que o cenário de "crise econômica e política" escolheu como alvo principal a educação. Vivemos sob a égide de um Governo Golpista que a serviço do capital promove o desmonte da educação pública com cortes de verbas para programas como o ProUne e Ciências Sem Fronteiras, Reforma no Ensino Médio, sucateamento e fechamento de Universidades.

Recorro ao Poder Jovem de Artur Poerner não só para fazer memoria da luta estudantil, visto que ela é permanente e dialética, ressurgindo a cada "nova crise" com características próprias de seu tempo. O tempo de hoje é um tempo de ocupar os espaços que é da juventude por direito e resistir ao avanço de uma política reacionária que ameaça os direitos democráticos, a liberdade de expressão e o livre pensar.
Lutar e a única Opção!

No dia 11 de agosto, é comemorado, no Brasil, o Dia do Estudante. Essa comemoração acontece desde o ano de 1927 e teve como ponto de partida algo que ocorreu cem anos antes, isto é, em 1827, na época do recém-instituído Império Brasileiro. Em 11 de agosto de 1827, o então imperador Dom Pedro I autorizou a criação das duas primeiras faculdades do Brasil, a Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco, e a Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, em São Paulo. Por esse motivo, no dia 11 de agosto, também se comemora o Dia do Advogado no Brasil.
http://arthurpoerner.blogspot.com.br/p/arthur-jose-poerner-1939-escritor-e.html









quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Trem desgovernado! Lutar Sempre Temer Jamias!

Hoje acordei assim...
Com os pensamentos meio fragmentados
A respirar reticências...
Com uma única certeza
Não tenho certeza de mais nada
Uma vontade de ficar na cama
Hoje eu poderia dormir até tarde
Mas o sono se foi
Antes mesmo que chegasse a aurora
Com suas tranças de ouro e dedos de rosa...
Sinto o estômago contorcer...
Será fome?
Ontem fiquei enjoada
Nada passava na garganta
Parecia que tinha engolido um gigante
Um ensopado de patos
Uma porção (das grandes) de coxinhas
Em nem ouvi o raspar da panela!
Não sou de chorar o leite derramado
Apesar de poetisa, romântica e nostálgica
Não perco tempo olhando para trás
Me embarcaram nesse trem
Conduzido por um usurpador
Chapeleiro maluco
Cego de ambição
Não vê...
A "ponte para o futuro" é pura enganação
Esse trem está andando para trás!
Ontem ele poderia ter sido parado
Não foi...
A viagem será longa...
Bora tirar o pijama
Passar o café
E tentar acordar os demais passageiros
Antes que seja tarde demais!

A importância das ciências humanas no currículo

Por Ivo Lima: Ao tratar da reforma do ensino médio, cuja Lei n° 13.415/17 foi aprovado em fevereiro passado, é importante ressaltar que a inclusão das disciplinas de Filosofia e Sociologia foi resultado de uma grande mobilização no interior da sociedade brasileira, através da articulação, organização e participação de entidades educacionais, bem como da sociedade civil organizada. Com essa longa luta, desde o início dos anos 80, conseguiu-se a aprovação destas disciplinas como obrigatórias no currículo escolar, em 2008, tendo como base legal a Lei 11.684/08. De lá para cá, diversas entidades educacionais, entre elas a Associação de Professores (as) de Filosofia e Filósofos (as) do Estado de São Paulo (APROFFESP), empenham-se muito no sentido de consolidar um trabalho com consistência, no campo teórico e prático, em relação à Filosofia e sua finalidade na formação das novas gerações. Mas o Ministério da Educação do governo Michel Temer, por intermédio de seu Ministro, Mendonça Filho, enviou ao Congresso Nacional, em 22/09/16, a Medida Provisória n° 746 que propôs a reforma do ensino médio, a qual já havia sido proposta pelo PL N. 6.840/13 e que vinha sendo discutido pela sociedade e instituições de ensino desde então. No bojo das discussões sobre essa reforma estava a proposta de uma nova Base Nacional Comum Curricular com modificações em sua grade. Daí vimos que o atual governo, com sua “assinatura”, simplesmente eliminou o Artigo 36 da Lei de Diretrizes e Base (LDB)/96, tornando a Filosofia e a Sociologia disciplinas não mais obrigatórias, o que garantia o referido Artigo. Com isso, retrocedemos ao estágio da Lei 5.692/71, da ditadura militar, que tinha exilado a Filosofia do currículo escolar. Mas perguntamos, trata-se realmente de um “novo ensino médio”? As peças publicitárias do governo federal na grande mídia, afirmam que essa reforma contou com a participação da sociedade, por meio de uma ampla consulta, via site do Ministério da Educação feita durante o governo Dilma, aos setores interessados, como: professores, alunos, pais e equipes gestoras. Isso ocorreu de verdade, confirme destaca essas propagandas? E se houve essa participação, as sugestões de fato foram analisadas e incorporadas? Não sabemos! Além disso, afirma a propaganda oficial que os alunos vão poder escolher as matérias que quiserem, conforme as opções oferecidas pelas cinco áreas, a saber: I. Linguagem; II. Matemática; III. Ciências da Natureza; IV. Ciências Humanas; e V. Formação técnica e profissionalizante. Será mesmo que os alunos irão poder escolher? E se irão, em que condições? E nota-se aqui o acréscimo da quinta “área do saber”, não explícita nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de 1998. E como será feita essa formação técnica e profissionalizante para o mundo do trabalho? Na realidade, o foco dessa reforma é assentado no tecnicismo, sem levar em conta a formação humanista dos educandos; e o conceito “mundo do trabalho” é facilmente substituído pelo “mercado do trabalho” e sua lógica produtivista. Para finalizar, citamos: “Deixar de ser obrigatório no currículo, entre outras disciplinas, Filosofia, Sociologia, Artes, Educação Física é cortar o corpo e o pensamento, o lúdico, o afetivo – ao mesmo tempo em que se rouba dos jovens a oportunidade de incitar um pensamento capaz de olhar em perspectiva, perceber conexões, livrar-se de uma condição de embrutecimento, em que um mundo que apresenta os acontecimentos de forma isolada e desconectada de suas origens, causas, implicações, seguindo uma lógica próxima às colunas dos jornais, que apresentam as notícias isoladamente, sem estabelecer conexões entre si, entre elas e em nossas vidas. Há muito a ser questionado nos modelos de ensino e escola, mas isso implica uma imersão em conteúdos e lógicas próprias às disciplinas que ora estão sendo excluídas dos currículos, e não o contrário. (...). Estamos, portanto, dando um tiro no pé ao retornar a um discurso que valoriza a instrução (Kant) e o ensino técnico profissionalizante”. (Ângela Madeiros Santi, doutora em Filosofia pela PUC/RJ e coordenadora do projeto ITEC (Imagem, Texto e Educação do Imaginário Social), da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


Ivo Lima Professor de Filosofia e Escritor Diretor de Políticas Pedagógicas da APROFFESP Email: ivodos@yahoo.com.br

http://aproffesp.org/files/PDF/plen%C3%A1rias/2017/Cincias_Humanas_e_Filosofia_-_Ivo_Lima_Santos.pdf

SAUDAÇÕES A CONSTITUINTE POPULAR DA VENEZUELA!

Por Aldo Santos: O debate sobre a Venezuela deve ser entendido dentro do contexto geopolítico que vem se desenhando no continente Latino-americano, na Europa e em várias partes do mundo, . Alguns autores afirmam que é notório e crescente o avanço do neoliberalismo pelo mundo todo, delimitando e fragilizando as políticas neo desenvolvimentistas, confinada na sua grande maioria nos livros das academias. A luta pelo socialismo, mesmo o socialismo do século XXl, está sofrendo uma espécie de cercamento do imperialismo americano, das grandes potencias europeias que querem de toda forma asfixiar os países que ousam desenvolver novas formas de partilhas econômicas, de inclusão social e de liberdades políticas e de utopias necessárias. Cuba foi vítima deste cercamento e ainda padece de sequelas e de monitoramento da Grande Casa Branca, onde o fascista do Donald John Trump retrocede nas políticas tímidas que de certa avançaram no governo de Barak Obama em relação ao governo e povo Cubano. Cuba resistiu e hoje é modelo para o mundo no campo da saúde, esporte, educação, e da solidariedade humana, mesmo diante de novos desafios e novas políticas de gradual abertura e de concessões econômica neste singular momento da conjuntura. A Venezuela ainda se alimenta do carisma de Hugo Chávez; carisma este que falta a Nicolás Maduro. Todavia, o formato de constituinte inclusiva que patrocinou cumpre importante papel nesse momento de profunda desestabilização política, econômica, social e invasiva que o pais vem atravessando.Quando Gramsci diz que é preciso tomar partido, na Venezuela não é diferente, pois mesmo com os devidos reparos que a democracia, a soberania popular e a autodeterminação dos povos saberão prospectar com o povo participando, o plano da constituinte com o povo ainda é fundamentalmente melhor do que ser esmagado sob as botas das ditaduras, da invasão e recolonização pretensiosa do governo americano e seus históricos satélites.Quando James Monroe afirmava que "A América para os americanos", resumia a doutrina patrocinada em 1823 pelo presidente dos Estados Unidos.Porém, a América é dos Venezuelanos, Cubanos, Bolivarianos e da matriz filosófica que povo determinar e abraçar em qualquer parte do mundo.É urgente o contra ponto dos BRICS, instituído em 2001 pelo economista inglês Jim O'Neill, referindo-se a quatro países a saber: Brasil, Rússia, Índia e China.Esse apoio ao que resta de democracia operária ou da manutenção e crescimento do já fragmentado socialismo terá papel de relevo no reordenamento mundial que hoje está sob as botas dos históricos colonizadores que sucateiam, roubam, escravizam países e matam de fome populações inteiras como ocorre no continente Africano, provocando todas as formas de misérias e degradação humana. Neste sentido, não tem neutralidade diante da guerra civil que está em curso na Venezuela e o apoio a constituinte, a soberania popular defendida nas ruas se impõe como elemento determinante de resistência diante do descomunal conservadorismo e do fascismo que avança desmedidamente em grande parte do planeta.

Lutar, democratizar, viver e vencer é preciso!
Aldo Santos- Militante Sindical, Partidário e Popular

Lúcia Peixoto: Sou PSOL sonho socialismo

Do dia de hoje só espero que passe compassadamente, num constante tic-tac Que os pássaros que ouço ao longe não se cansem de cantar Que a...