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Meu Porfiar Filosófico!


Precisar o quando e o como do despertar filosófico em mim, não me parece tarefa fácil, como se diz no senso comum: acho que filosofo desde que me conheço por gente. Então pensar a filosofia em minha trajetória de vida é pensar a existência em toda sua complexidade.
Na busca pela precisão cronológica, me vejo muito menina, diante de uma arapuca onde uma Rolinha se debatia, era pratica comum entre os meninos da roça, espalhar por toda parte aquele tipo de armadilha para aprisionar passarinhos, a arapuca em questão era obra de um primo que sempre me fora muito querido, mas que naquele momento, diante do sofrimento do pequeno pássaro, transformava-se aos meus olhos em carrasco cruel. Eis o primeiro grande dilema do qual tenho lembrança, dilema ético, visto que, libertar o pássaro seria trair a confiança do meu primo, e deixá-lo lá a se debater até ser levado para uma gaiola, de onde jamais sairia vivo, me tornava cúmplice daquela crueldade, não que aos seis anos de idade tivesse eu consciência do significado de traição e de cumplicidade, só sabia de uma coisa, tinha que fazer a coisa certa, era o que meus pais diziam o tempo todo: “não pode, porque não é certo, tem que fazer isso ou aquilo, porque é a coisa certa”. O certo dizia meu coraçãozinho choroso, era libertar o pássaro. Fiz a coisa certa, porém, senti um aperto ainda maior no coração ao ver a rolinha sumir diante dos meus olhos, estragar o trabalho de horas do meu primo não fora certo, ele ficaria triste, e minha mãe me castigaria quando soubesse. Naquele momento tive consciência da relatividade,  certo ou errado muitas vezes é uma questão de ponto de vista, ou seja, o justo para com  o pássaro era injusto para com meu primo, como explicar a ele meu ato de compaixão para com aquela rolinha? Pior! Como explicar para minha mãe o que  fazia eu, sozinha no meio do mato a me meter com coisas de meninos?
Desde então estou eu a porfiar pela vida tropeçando nas arapucas, abrindo umas, desviando de outras tantas (por questões de sobrevivência), procurando “fazer a coisa certa”, conservando contra toda e qualquer lógica a inquietude de minha meninice, não me conformando com o que me parece injusto, e indagando o que é afinal a justiça?


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