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A QUEM INTERESSA BANIR A FILOSOFIA DO ENSINO MÉDIO?




EXCELENTE TEXTO DE 1987, TÃO ATUAL QUE NOS DESAFIAR À REFLEXÃO... É PARA LÁ, UM PASSADO TECNICISTA SEM LIBERDADE DE PENSAMENTO QUE  A TAL "PONTE PARA O FUTURO DO GOVERNO GOLPISTA QUER NOS LEVAR? E VAMOS SEGUIR FEITO GADO RUMO AO ABATEDOURO?


A VOLTA DA FILOSOFIA 

Adoniel Motta Mata

Professores e estudantes de Filosofia das universidades Federal e Católica estão lutando pela introdução, ou melhor, pela volta dessa matéria às escolas do 2º grau, obrigatoriamente. Pretendem, ainda este mês, procurar a secretária de Educação, para fazer essa reivindicação. Creio que foi em 1971, quando se fez uma reforma do ensino, no Brasil, que a oferta de Filosofia deixou de ser obrigatória, nos colégios. Achou-se que era supérfluo, pois o importante seria formar técnicos e aquela coisa de estudar ética, estética, moral, etc., não levava país algum para a frente. Por outro lado, num regime ditatorial, não era conveniente estimular os indivíduos a ter e desenvolver ideias e muito menos estudar aquelas tidas como “perigosas”, concebidas lá fora, em outras nações e por estas postas em prática. Tivemos, então uma fase de escuridão, na vida nacional. E nossos jovens foram sacrificados, mentalmente. Toda uma geração foi perdida. A sociedade murchou. Por que se tirou a Filosofia das escolas? Mais que isso. Porque se tirou a Filosofia da nação. Por inteiro. Há, contudo, nessa questão, aspectos que merecem muita reflexão e que puxam outras questões. Algumas delas proposital ou acidentalmente escondidas e que devem ser mostradas à luz do pensamento. Convido-os, provoco-os, hoje a filosofar sobre elas, neste espaço.

Querer Pensar
Entrei no elevador do prédio onde moro e uma vizinha me saudou, fazendo um comentário sobre este espaço. Disse-me, então ter discutido com uma amiga, também leitora dos textos aqui publicados aos domingos, porque essa amiga se queixava de não encontrar aqui, afirmações conclusivas. “Ela nos faz pensar” - teria dito minha vizinha. O elevador chegou ao térreo e nos despedimos cada qual se dirigindo para começar um novo dia. Um dia que não deveria ser igual ao anterior, nem a nenhum outro. Em cada dia, nós acrescentamos mais um pouco de observação e de experiência à nossa vida e isso muda todos os dias futuros. Porque, ainda que imperceptivelmente, também muda nosso pensamento. Não encontramos verdades definitivas. Por isso não sou dono da verdade. Ninguém o é. Não se pode, portanto, fazer afirmações conclusivas, sem o grande risco de errar.

Dessa conversa no elevador, tiro, no entanto, uma realidade: o indivíduo contemporâneo resiste à necessidade de pensar. Por comodismo, na maioria das vezes, mas também por falta de tempo, por medo e por teimosia, para não ter de mudar de opinião, entre outras razões. Uma vez, anos atrás, uma pessoa mais velha e muito querida leu o meu livro Humanidade e encontrando-me, comentou: “Não entendi o que você escreveu”. Aquilo era mentira. Pessoas de menor nível de educação com menos leitura, já tinham me falado do livro e entendido tudo, pois a linguagem do seu texto é muito fácil. Às vezes as pessoas dizem não entender, quando deveriam dizer: “Não concordo”. Falei isso para ela, que tinha vivido o suficiente para me dar muitas lições e ela sorriu, argumentando: “Sabe o que é? É que eu levei toda uma vida, estruturando o meu mundo e o meu Deus. Se eu mudar de opinião, agora, vou sofrer muito, porque terei uma enorme sensação de perda”. As palavras foram mais ou menos estas. Quem trabalha com afirmações conclusivas corre esse risco, de ir montando um grande castelo que pode ter de ser derrubado, depois de pronto e muito bonito. Ninguém quer derrubar os lindos castelos que faz. Assim, é melhor não fazê-los, mantendo-se em permanente reflexão, buscando uma verdade que talvez jamais seja encontrada, mas será sempre melhor que a mentira.

Isso, no entanto, exige permanente esforço, o que acaba por fazer desistir os menos resistentes. Os que não querem pensar continuamente acabam sendo enganados numa ou noutra oportunidade, por afirmações conclusivas de quem quer manipular opiniões e conduzir cordeiros. E os que não querem pensar, nunca, acabam sendo escravos, cobaias e joguetes dos que exercitam o pensamento com malícia. Agora mesmo no Brasil, vivemos uma crise de democracia, porque, o povo não pode mandar, não pode governar, se não tem consciência. Como não pode haver consciência sem pensamento, nossa crise é sobretudo de pensamento. O nosso povo é jogado de um lado para o outro por líderes políticos que servem correntes de pensamentos e por analistas econômicos que apresentam afirmações conclusivas. Enquanto cada indivíduo, nesta Nação, não exercitar seu próprio pensamento, na direção de tornar-se mais consciente, toda a Nação será jogada da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, e assim sucessivamente. Uma geração terá um governo de direita, a seguinte o terá de esquerda, alternando-se, assim, velhas filosofias de poder. O povo ignorante e inconsciente, com preguiça de pensar, de administrar as ideias (suas e dos outros) em seu benefício, sendo levado pela onda do momento.

Querer pensar é, portanto, fundamental. Quem está construindo castelos que julga serem definitivos, usando pedras e tijolos de um só fornecedor, deveria refletir um pouco mais sobre as vantagens da dúvida. É esta, sempre quem põe as nações para a frente, estimula as descobertas e gera as invenções. Quem trabalha com certezas faz sempre uma casa com teto muito baixo.

Saber Pensar
Certamente, muita gente não quer pensar, não gosta de pensar, porque não sabe pensar. Pode, alguém gostar de nadar, se não sabe se quer se equilibrar na superfície da água? Quem gostará de ler, sem saber o significado das palavras? E quem, voluntariamente, quererá fazer uma coisa que não gosta? Para aprender a pensar, é preciso, portanto contar com um certo material - os dados, geralmente frutos da observação, leitura, etc. - e com uma certa técnica. Nada que uma boa dona de casa não saiba fazer o que pode ser sintetizado num verbo: arrumar. Pensar é arrumar dados, como se faz com um quebra-cabeça. Por isso, nada é mais estimulante para fazer pensar do que o mistério e como este é facilmente encontrável na literatura de ficção policial e científica, costumo recomendar esse tipo de leitura a meus alunos.

Desde a Antiguidade, portanto, o saber pensar era privilégio de poucos, que eram chamados de “pensadores” (ainda o são). Ordenavam, organizavam o pensamento, arrumando os dados obtidos com a observação e a experiência, de modo que com eles montavam estruturas de grande sabedoria. Motivo por que também eram chamados de “sábios”. Muitos deles se imortalizaram, por fazer algo que qualquer um de nós pode realizar. Afinal, nascemos todos, seres humanos, com um cérebro capaz de tal proeza. Se alguns não o desenvolveram, por problemas de nutrição ou o tiveram prejudicado por traumas psicológicos, ainda na infância, esse é um problema que temos de minimizar em nossa sociedade, com as demais, sob pena de comprometer o destino dela ou de toda a humanidade. Normalmente, contudo, ainda que não comumente, todos nascemos em condições de montar complexas estruturas de pensamento.

Nesta tarefa, podemos gerar ideias e/ou trabalhar com ideias alheias. Em verdade, a sabedoria está em não desprezar quaisquer delas, por mais contraditórias que sejam ou pareçam. Mesmo porque ideias diferentes são apenas caminhos diferentes para se chegar a uma mesma verdade. O observador que se deixa seduzir por um único ângulo de observação tem reduzido o seu campo de visão e esta acabará mostrando apenas uma parte uma parte da realidade. Partidos e seitas Costumam oferecer tais limitações. Há quem se orgulhe de ter uma visão da esquerda, da direita ou do centro, quando a melhor posição, certamente, é a de cima, por ser aquela que proporciona uma visão geral. Saber pensar é ampliar ao máximo o seu campo de observação. Sem medo de ver o que não quer, porque quem se propõe a pensar, quer ver tudo, quer saber tudo.

Desde a Antiguidade, portanto, que há escolas para ensinar a pensar. Os sábios, pensadores, tinham discípulos que se iniciavam na arte de ordenar os pensamentos, racionalizando-os. Os gregos foram mestres insuperáveis nisso. As escolas de Filosofia, então, formavam filósofos. Evidentemente, cada mestre exercia uma certa influência sobre seus discípulos, mas esse não era um processo castrador. Não temos escolas de Filosofia, assim, formadoras de filósofos. Nossas escolas pretendem formar apenas professores de Filosofia, ou sejam, pessoas capazes de apresentar os filósofos e suas ideias. O que, sem dúvida, deixa o Brasil em geral e a Bahia, em particular, carente de uma espécie de pensador que gera ideias e contribui decisivamente para a criação de hipóteses, sem as quais não se inicia o processo científico. Nossas escolas de Filosofia formam pensadores para trabalhar com ideias alheias. Ideias que chegam até nós, depois de viajar muito, no tempo e no espaço. Temos de passar da compilação para a criação, sem ignorar, evidentemente, a evolução do pensamento, na história da humanidade.

Saber pensar não é, portanto, bicho de sete cabeças, mas exige determinação, esforço contínuo e abertura completa do ângulo de visão. Sacrificar as partes, para chegar ao todo. E sobretudo ter muita humildade para cultivar a dúvida, afastando-se das afirmações conclusivas.

Fazer Pensar
No fim da década de cinquenta, quando o Colégio Estadual da Bahia (Central) era um dos melhores colégios da cidade, tive dois professores de Filosofia. Lembro-me de ambos, mas não me lembro do conteúdo de suas aulas. Talvez por culpa minha, por não ter dado maior atenção a elas, já que fazia o chamado “curso científico”, visando o Vestibular de Engenharia Civil e, consequentemente, valorizando mais as ditas “matérias de Vestibular” (Matemática, Física, Química...). Lembro-me que as aulas eram palestras sem obrigatoriedade de se tomar notas, porque, em princípio, bastava frequentá-las para ser aprovado. Assim fazia um dos professores, que, dessa forma, tinha a simpatia dos alunos. O outro, no entanto, nos enchia de conteúdo programático (não me lembro qual) e dava uma aula chata. Não tinha boa imagem.

Seja como for, os jovens de então cultivavam o pensamento. Mesmo sem lembrar do conteúdo, hoje, mantive o procedimento e me habituei a pensar. Não por acaso que aquela geração do Central deu um bom conjunto de pensadores à Bahia, desde artistas como Glauber Rocha até pesquisadores como Fernando Rocha Peres. Retenho imagens, em minha memória, dos intervalos de aula ou em momentos como as famosas “aulas vagas”, quando nos reuníamos em qualquer lugar para discutir os mais diversos assuntos. Nossas ideias se enriqueciam com as ideias dos colegas e nós víamos o mundo como uma coisa que dependia também de nós, de nossa participação, aqui mesmo, na Bahia. Se o ensino da Filosofia não nos preparava, portanto, para o Vestibular ou mesmo para uma profissão técnica, era evidente que nos preparava para a vida, até mesmo como técnicos e, antes, como estudantes universitários. O ensino de Filosofia nos fazia pensar. Numa reação em cadeia, eu, hoje, como professor, ainda que não de Filosofia, faço meus alunos pensar. Provoco-os à reflexão, ao questionamento, mesmo quando estamos tratando de matérias da área tecnológica.

Vejo, portanto, como absolutamente necessária e urgente, a volta da Filosofia às escolas do 2º grau, inclusive e principalmente como preparação da mente do estudante para uma boa performance no curso universitário, seja qual for a área deste. Mas não aquela Filosofia que apenas relaciona filósofos e apresenta suas ideias, para que os alunos decorem tudo. Também não aquela Filosofia, que serve de instrumento a professores ideologicamente comprometidos e que nada mais fazem do que tentar doutrinar seus alunos. Vejo como necessária aquela Filosofia que ensina a pensar e faz pensar, com método, e que se constitui em fonte de crítica ao mundo, às nações e até à própria escola e seus professores. Não com o objetivo prévio de mudar - porque às vezes se muda para pior - mas de exercer acrítica como análise, que não raramente determina objetos e procedimentos a serem conservados, como suporte de novas conquistas. Pode-se muito bem substituir as flores, sem mudar os vasos.


Mas vejo sobretudo, a Filosofia, nas escola, sem escamotear dados, procurando dar aos jovens estudantes o direito de divergir uns dos outros e do próprio professor. É importante apresentar os filósofos de todas as vertentes e deixar que os próprios alunos os vejam com seus olhos, sem conduzir o seu pensamento, sem passar para eles sua ideologia, do professor. Ou a do autor do livro adotado, como texto, que também deve ser criticado, à luz de dados contrários. Como também deve ser analisado este texto, que vocês agora estão lendo, sem aceitar pacificamente essa minha visão. Não lhes posso dar, porque não lhes devo dar, portanto, afirmações conclusivas. Posso oferecer apenas alguns enfoques para a reflexão que será de cada leitor. A vocês, cabe concluir e achar suas próprias verdades, que, também, um dia cairão, como caem as pétalas da rosa que cuidadosamente colocamos no vaso. O importante é saber que não se pode conservar a rosa, mas se deve conservar o vaso até que outro mais bonito possa substituí-lo.


SERÁ QUE É PRECISO DESENHAR?


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