Teatro: Quatro garotas e um destino de Lúca Peixoto

TEATRO

PEÇA: Quatro Garotas e um Destino
AUTORIA: Lúcia Martins Peixoto
GRUPO: "ASSYMDKARA"
CENÁRIO: “Abstrato” 

A TRAMA SE DESENVOLVE A PARTIR DO MOMENTO EM QUE JAQUELINE SE DESCOBRE GRÁVIDA AOS 16 ANOS, DEPOIS DO FIM DO NAMORO COM JEFFERSON, AGORA NAMORADO DE SUA MELHOR AMIGA KELLY. JAQUELINE MERGULHA EM UM GRANDE CONFLITO, NÃO SABE O QUE FAZER, E CONTARÁ COM A AJUDA DE SUAS TRÈS AMIGAS, KELLY, ADRIANA E PATRICIA PARA DECIDIR O FUTURO, SEU E DE SEU FILHO.

MUSICAL DE ABERTURA

JAQUELINE NO MUNDO DOS SONHOS A AURORA DE TRANÇAS DE OURO E DEDOS DE ROSA TRAZ A LUZ DE UM NOVO DIA, DUENDES E FADAS SAÚDAM O REI SOL. (Poema “No mistério do sem-fim” de Cecília Meireles)


1ª FADA: No mistério do Sem-fim, equilibra-se um planeta... é no planeta, um jardim, e no jardim um canteiro, no canteiro uma violeta, e sobre ela o dia inteiro, entre o planeta e o Sem-fim a asa de uma borboleta!

2ª FADA: Somos a borboleta... Nosso destino, um jardim, resumo de uma utopia... a arte da Jardinagem aplicada ao mundo inteiro!

1ª FADA: Todo ser humano deveria ser Jardineiro!

3ª FADA: O universo tem para além de todas as misérias, um destino de felicidade!

2º FADA: A Humanidade deve reencontrar a felicidade!... no paraíso esquecido!

1ª FADA Se no teu centro um paraíso não puderes encontrar, não existe chance alguma de algum dia nele entrar.

2ª FADA: No mistério do Sem-Fim, equilibra-se um planeta!

1ª FADA: E no planeta um Jardim…

3ª FADA: E no Jardim um canteiro…

1ª E 2ª FADAS: No canteiro uma violeta…

3ª FADA: Sobre ela, o dia inteiro...entre o planeta e o Sem-fim, a asa de uma borboleta!

JAQUELINE: Queria o jardim dos meus sonhos, aqueles que existem dentro de mim como saudade... o que eu buscava não era a esfera dos espaços de fora, era a poética dos espaços de dentro... Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas, em busca do tempo perdido!

AURORA: A Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mas do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade…

JAQUELINE: Não se vá...aurora, de tranças de ouro e dedos de rosa… duendes...fadas...não me abandonem... aurora, não quero despertar para minha triste realidade!

AURORA: Não podes esconder-se no mundo dos sonhos... seu corpo já despertou para a puberdade aprisionando a alma infantil... Não temas a realidade, são belos os primeiros anos da puberdade, seu corpo de menina se transforma em terra fértil, deixe desabrochar a vida... ainda que não mais me veja em seus sonhos encantados, terás sempre consigo sua fada madrinha... adormecida em sua alma. (Sai)

JAQUELINE: O dia esta se pondo... com o último suspiro do Rei Sol finda-se o sonho de minha infância perdida...

CAI A LUZ. SURGE A NOITE TRAZIDA POR CREPÚSCULO

JAQUELINE: (Recita) Goteja a saudade Perco-me no tempo,do tempo, com o tempo. E as horas que passam...empurram o passado, e os minutos caem, Parecem gotas de esquecimento Que enterram outros tempos. Olha para dentro de mim: O tempo só corre por fora, o tempo só sopra na pele, pois, lá dentro, há um lago de saudade cheio de gotas que contam a história do tempo que foi... Pois do tempo que passa só fica a saudade e o espelho do lago sou eu... Deus dei-me a luz de uma nova manhã... (Vê-se envolvida pela aurora)

CREPÚSCULO: (Envolvendo-a) Não sei se vou ou volto não sei se sou ou findo... O bumerangue, eu noto: vai vindo e vem indo. Reverto a velha ampulheta, reverte a areia por dentro. Notável que o próprio tempo assim também não reverta. Que assim também não reverta notável é o próprio tempo: reverte a areia por dentro quando reverto a ampulheta. Ruínas! Ruínas! velhas senhoras! Ruínas, renas, cendorrê, nascendo renascendo! Ruínas! Marcam o ritmo na história... Por que temes o novo tempo?

JAQUELINE: Por que me rouba os sonhos mais belos?

CREPÚSCULO: Os sonhos não morrem, apenas adormecem, para que nasçam outros sonhos mais belos…

JAQUELINE: Ainda quero os mesmos sonhos encantados... desejo fugir ao pesadelo que envolve minha alma…

SURGE A PAIXÃO (JEFFERSON) ENVOLVENDO-A ELA ENTREGA-SE A DANÇA DEIXANDO-SE CONDUZIR POR ELE.

PAIXÃO: No divino impudor da mocidade, nesse êxtase pagão que vence a sorte, num frêmito vibrante de ansiedade, dou-te o meu corpo prometido à morte! A sombra entre a mentira e a verdade... A nuvem que arrastou o vento norte... Meu corpo! Trago nele um vinho forte: Meus beijos de volúpia e de maldade! Trago dálias vermelhas no regaço... são os dedos do sol quando te abraço, cravados no teu peito como lanças! E do meu corpo os leves arabescos vão-te envolvendo em círculos dantescos… Felinamente, em voluptuosas danças de paixão sem fim... (Entregam-se em uma louca coreografia)

ELE SE AFASTA SOZINHA JAQUELINE SE DEIXA CAIR NO CENTRO DO PALCO. SUAS AMIGAS VEM AMPARÁ-LA. VIVEM A SAUDADE DA INFÂNCIA, PRECOCEMENTE PERDIDA.

JAQUELINE: Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais!

KELLY: Que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras à bananeiras, sombra Debaixo dos laranjais!

ADRIANA: Como são belos os dias do despontar da existência! - Respira a alma inocência como perfumes a flor…

PATRÍCIA: O mar é - lago sereno, o céu - um manto azulado, o mundo - dourado, um A vida - um hino d'amor! sonho

JAQUELINE: Que aurora, que sol, que vida... que noites de melodia naquela doce alegria, naquele ingênuo folgar! O céu bordado d'estrelas, A terra de aromas cheia As ondas beijando a areia E a lua beijando o mar!... Oh! dias da minha infância! Oh! meu céu de primavera! Que doce à vida não era Nessa risonha manhã! Em vez das mágoas de agora, Eu tinha nessas delícias De minha mãe as carícias E beijos de minha irmã!

ELAS SE POSICIONAM NAS EXTREMIDADES DO PALCO ONDE PERMANECEM IMÓVEIS. RETORNAM AOS "OITOS ANOS" JAQUELINE BRINCA COM SUA BONECA

JAQUELINE: Oi filhinha... sentiu falta da mamãe?... vou trocar sua roupinha... te dar sopinha... e ai você vai naná... (Começa a cantar) Nana neném, do meu coração... sabe filhinha... quando eu crescer, eu quero ser artista, fazer novela, filmes... eu vou ser muito famosa…

ENTRA KELLY, ADRIANA E PATRÍCIA ENTRAM CORRENDO.

KELLY: Oi Jaqueline... Você tá brincando do que?

JAQUELINE: (colocando a boneca de lado) de nada…

PATRÍCIA: (Pega a boneca) Eu quero ter muitos filhos... um montão

JAQUELINE: Eu quero ser famosa... eu não vou ter filho, a mamãe disse que criança dá muito trabalho... eu quero estudar, trabalhar... eu vou ser uma mulher moderna…

ADRIANA: eu também não quero filhos... ou vou ser bailarina.

JAQUELINE: Eu quero ser atriz... viajar muito, conhecer o mundo inteiro…

KELLY: Vamos brincar de teatro…

ADRIANA: Dessa vez eu vou ser a mamãe…

KELLY: Como você é boba Adriana... só sabe fazer teatro de mamãe…

PATRÍCIA: Eu quero um conto de fadas…

KELLY: Eu vou ser a Bruxa…

JAQUELINE: Eu sou a princesa…

PATRICIA: Assim não vale você sempre é a princesa.

ADRIANA: Por que a gente não faz uma cena da novela... aquela em que o gala beija a mocinha.... é tão romântico!

KELLY: E quem é que vai ser o Galã?

PATRÍCIA: A gente pode chamar meu primo… Jaqueline: Aquele chato do Marquinhos?

KELLY: Aqueles amiguinhos dele... eu não quero brincar com aqueles meninos.

ADRIANA: O marquinho é legal... hei! Marquinhos…

JAQUELINE: Adriana!... eu não acredito…

MARQUINHOS ENTRA CORRENDO SENDO SEGUIDO POR RODRIGO E DIEGO

MARQUINHOS: As meninas estão brincando de bonequinha…

PATRÍCIA: Não começa Marquinhos... vocês querem brincar com a gente?

DIEGO: Brincar de boneca?

RODRIGO: (Ninando a boneca em tom de brincadeira) Dorme nenê que a cuca vem pegar…

JAQUELINE: (Tomando a boneca) Esse bobões só sabem ficar correndo atrás de pipa…

ADRIANA: A gente vai montar um teatrinho.... querem participar?

RODRIGO: Teatrinho... sai fora... eu vou é jogar bola... (Sai correndo)

DIEGO: Eu também... isso é coisa de frutinha... (sai correndo)

MARQUINHOS: Eu gosto de teatro…

PATRÍCIA: Então quer brincar com a gente?

DIEGO: Olha lá... um pipa mandado!!! (Passa correndo)

ARQUINHOS: É meu.... (Sai correndo)

ADRIANA: Esses meninos!!!

JAQUELINE: Eu avisei.... eles só sabem ficar correndo de um lado para o outro

KELLY: Deixa eles para lá...vamos combinar uma coisa...... vamos fazer um pacto!

JAQUELINE: Que pacto?

KELLY: É um juramento…

ADRIANA: E a gente vai jurar o que?

PATRICIA: Eu vi isso num filme... eles selavam o pacto com sangue

JAQUELINE: Legal!

KELLY: Vamos jurar...e selar com nossa saliva... assim não doe

ADRIANA: Ai que nojento

PATRICIA: é mesmo!

KELLY: Vamos jurar, que seremos amigas para sempre... e que nós quatro vamos ser atrizes, aconteça o que acontecer.

JAQUELINE: A gente nunca vai ter segredo uma para outra.

ADRIANA: E sempre vamos decidir o que fazer, juntas.

PATRICIA: Legal... como aquele filme dos mosqueteiros... um por todos!

AS TRÊS: Todas por uma!

SELAM O PACTO E SAEM CORRENDO. AS QUATRO ENCENAM O FINAL DO POEMA.

JAQUELINE: Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida Que os anos não trazem mais! livre filha das montanhas, eu ia bem satisfeita, de camisa aberta ao peito, - Pés descalços, braços nus - correndo pelas campinas à roda das cachoeiras, atrás das asas ligeiras das borboletas azuis!

KELLY: Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais! que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras à sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais!

PATRÍCIA: Naqueles tempos ditosos ia colher as pitangas, trepava a tirar as mangas, brincava à beira do mar; rezava às Ave-Marias, achava o céu sempre lindo, adormecia sorrindo e despertava a cantar!

ADRIANA: Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida, da infância minha querida que os anos não trazem mais!- que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras à sombra das bananeiras debaixo dos laranjais!

DESPEM-SE DAS ROUPAS ARCO-ÍRIS PASSANDO A VIVER A REALIDADE

JAQUELINE: O que eu vou fazer da minha vida agora?

KELLY: Isso é um pesadelo Jak…

ADRIANA: Como é que isso foi acontecer... como deixou isso acontecer Jaqueline?

PATRÍCIA: A gente sempre conversou tanto

JAQUELINE: Vocês estão aqui para me ajudar ou para ficar me julgando... já aconteceu não tem mais volta... o que eu faço... o teste deu positivo... eu estou grávida!

ADRIANA: E isso ainda não é o pior... não é Kelly?

PATRÍCIA: Cala a boca Adriana

KELLY: Deixa ela falar... assim a gente resolve tudo de uma vez

JAQUELINE: Fala logo o que é pior Dri?

ADRIANA: A Kelly é que tem que falar

KELLY: Olha só Jak... sabe o quanto eu gosto de você…

JAQUELINE: Não enrola... fala logo…

ADRIANA: Acontece que a Kelly esta namorando com o Jefferson

PATRÍCIA: Adriana!

ADRIANA: A Kelly tá enrolando tem um tempão... ta dito

JAQUELINE: O que?... Isso é verdade Kelly?

KELLY: Quando vocês terminaram... eu te perguntei se ainda gostava dele... você disse que não

ADRIANA: Acha que ela ia fazer um filho com ele se não gostasse?

KELLY: Eu não sabia... me desculpa Jak... eu vou terminar tudo.

JAQUELINE: O que é isso meu Deus? Eu estou grávida... e o pai do meu filho está namorando minha melhor amiga? (começa a chorar desesperadamente)

PATRíCIA: (Abraçando-a) Olha só o que vocês fizeram... calma Jak…

KELLY: Eu não sabia que vocês tinham ido tão logo... eu gosto do Jef… mas a nossa amizade é mais importante que qualquer coisa…

JAQUELINE: Você e o Jefferson… eu não acredito!

KELLY: Porque você mentiu Jaq? A gente tinha um pacto… você dsse que ele não significava mais nada pra você…

JAQUELINE: Eu não acredito… Isso não pode estar acontecendo…

ADRIANA: Calma amiga, você não é a primeira nem vai ser a última menina que fica grávida… você tem que conversar com sua mãe.

JAQUELINE: Minha mãe vai morrer de desgosto… meu pai vai me matar!

KELLY: Eles não precisam saber…

ADRIANA: Como não? daqui a pouco a barriga dela começa a crescer.

KELLY: Olha só amiga… eu não quero mais saber do Jefferson, se eu soubesse que vocês tinham ido tão longe eu nunca teria ficado com ele… sabe disso não sabe?

JAQUELINE: Isso não importa agora… o que importa é que tem um filho dele aqui dentro de mim… O que eu vou fazer meu Deus?

KELLY: (Abraça a amiga com afeto verdadeiro, sem poder conter as próprias lágrimas) Isso é uma loucura… a gente tem que pensar no nosso futuro, no curso de teatro…você tem que pensar se vai deixar isso estragar sua vida

ADRIANA: Isso? (Arrastando Kelly para longe de Jaqueline) O que é que está dizendo menina?

KELLY: Não vem dar uma de puritana agora Dri… ela só tem esse filho se quiser

ADRIANA: Não acredito que está dizendo isso, estamos falando de uma vida, do destino de uma criança

KELLY: É da vida dela que estamos falando…

PATRÍCIA: Parem vocês duas… ela tem que falar com a mãe dela…

ADRIANA: Tem razão Pati… ter um filho é uma benção… Aborto é pecado, é crime Kelly

KELLY: Crime é ela deixar que um momento de irresponsabilidade destrua o futuro dela… um filho agora será o fim de todos os seus sonhos

ADRIANA: Dos sonhos dela, ou dos seus Kelly?

PATRÍCIA: Você não está dizendo isso por causa do Jefferson… eu não estou te reconhecendo Kelly?

KELLY: (Muito magoada) Nós fomos amigas a vida inteira e vocês não me conhecem... eu quero que ele se dane... o que importa aqui é a vida da Jaqueline... Olha pra mim amiga… Eu abortaria.

ADRIANA: Pelo amor de Deus Kelly… não escuta o que ela está dizendo Jaq.

PATRICIA: Eu sempre achei o aborto um crime abominável... nós apreendemos na catequese que é pecado

KELLY: Pecado é colocar uma criança no mundo nessas condições…

ADRIANA: Eu realmente não te reconheço Kelly... você teria coragem de matar seu próprio filho?

KELLY: Pare de falso moralismo… essa criança ainda não está nem formada... eu tenho uma amiga que conhece uma mulher, ela prepara uns remédios…

PATRICIA: Vamos com calma... isso não pode ser resolvido assim…

ADRIANA: Não tem nada que resolver... ela fez a burrada agora tem que assumir... você não vai dar ouvido a ela vai Jaqueline?

PATRICIA: Sua família é muito religiosa... a gente sempre acreditou em Deus... minha mãe sempre diz que quando temos fé, nada é impossível… tem que acreditar Jaq… vai dar tudo certo.

JAQUELINE: Não acredito em nada. as minhas crenças voaram como voa a pomba mansa; pelo azul do ar. E assim fugiram as minhas doces crenças de criança... Fiquei então sem fé…

ADRIANA: Eu não acredito que você vai recitar poesia numa hora dessas…

KELLY: O poema da peça de natal… você tem tanto talento amiga!

ADRIANA: Talento e força… e nós estaremos com você!

JAQUELINE: O mundo parou a estrela morreu no fundo da treva o infante nasceu. Nasceu num estábulo pequeno e singelo com boi e charrua com foice e martelo. Ao lado do infante o homem e a mulher uma tal Maria um José qualquer. à noite o fez negro fogo o avermelhou a aurora nascente todo o amarelou. O dia o fez branco, branco como a luz à falta de um nome chamou-se Jesus.

AS TRÊS: (muito emocionadas) Jesus pequenino Filho natural. Ergue-te menino é triste o Natal…

KELLY: Ah! quem nos dera que isso, como outrora, inda nos comovesse! Ah! quem nos dera que inda juntas pudéssemos agora ver o desabrochar da primavera! saíamos com os pássaros e a aurora, e, no chão, sobre os troncos cheios de hera, sentavas-te sorrindo, de hora em hora: "Beijemo-nos! amemo-nos! espera!"... Amiga querida anima-te, vamos juntas...as quatro... encantar o mundo com os mais belos poemas, falando de amor... falando da vida! (Sai correndo de cena)

ADRIANA: O amor dos poemas... se vão ao longe roubando-nos a infância...pus-me a cantar minha pena com uma palavra tão doce, de maneira tão serena, que até Deus pensou que fosse felicidade - e não pena... Anjos de lira dourada debruçaram-se da altura... Não houve, no chão, criatura de que eu não fosse invejada, pela minha voz tão pura. acordei a quem dormia, fiz suspirarem defuntos. Um arco-íris de alegria da minha boca se ergue apondo o sonho e a vida juntos. O mistério do meu canto, Deus não soube, tu não viste. Prodígio imenso do pranto: - todos perdidos de encanto, só eu morrendo de triste! por assim tão docemente meu mal transformar em verso, Oxalá Deus não o ausente, para trazer o Universo de pólo a pólo contente!

JAQUELINE: Tantas palavras... pelas palavras...frases rimadas… Mamãe, Papai... eu estou grávida!!! Vergonha desonra... uma filha tão jovem, tão bela... nasceu para ser artista... agora deve viver escondida com seu filho bastardo!

KELLY RETORNA COM JEFFERSON ADENTRA O PALCO

JEFFERSON: Meu filho nunca será um bastardo... ainda que não me queira...(Para Jaqueline) ainda que você me queira (Para Kelly) eu sou um bastardo... nunca vou renegar e jogar ao vento minhas sementes.

PATRICIA E ADRIANA: Bastardo... infeliz que semeia infelicidade... (Saem)

KELLY: Agora o quadro está perfeito... papai, mamãe... filhinho... acho que o grande autor da peça da vida esqueceu-se de escrever para mim um papel nessa trama.

JEFFERSON: Jaq... minha doce e bela ex e sempre namorada... Kelly, minha realidade... presente… quase passado!!! com vocês aprendi a fazer arte… me apaixonei e amei… Eu estou aqui Jaqueline, o que está feito fizemos juntos, pode contar comigo.

JAQUELINE: Jefferson... eu deveria saber que não me deixaria sozinha... Kelly… (Segurando-lhes as mãos) eu entendo o seu amor...por ser espelho do meu próprio amor

KELLY: O que é o reflexo diante do ser refletido?... não é amor o que sinto... vocês tem muito que falar... pensa minha amiga querida... seja como for...poderás sempre contar comigo... poderão sempre contar comigo.

JEFFERSON: Kelly…

KELLY: Fico feliz de ver seu gesto tão nobre...(Beija-os e sai)

JAQUELINE: Você quer que eu mate o nosso filho?

JEFFERSON: (Olhando-a longamente nos olhos) Traga-me uma faca… e eu mesmo o arrancarei de suas entranhas... esmagarei com minhas mãos o fruto do nosso pecado... (Ela recua assustada) Se pensa que sou capaz de matar meu próprio filho, mato também a ti.... e talvez a mim mesmo… Assim seremos lembrados pelo desfecho dramático dos jovens intérpretes de Romeu e Julieta! (ri entre confuso e emocionado) Não precisa ser um drama, nós vamos dar nosso jeito, fazer nosso corre quem sabe criar nosso muleque pelas coxias dos teatros

JAQUELINE: A gente ainda pode interpretar Maria e José na peça de natal… (se deixa abraçar )

JEFFERSON: Deixa ele nascer... a gente leva um lero com os seus pais... eu não tenho pai... mas minha mãe vai dar uma força... a cora é 10! Eu só acho que não dá pra casar... ainda tem o lance da Kelly... mas deixa moleque nascer... a gente cuida dele... quando você for ensaiar estrelar as peças eu fico com ele na arquibancada.

JAQUELINE: Ou ela…

JEFFERSON: Se for menina... vai ser bem bonitinha... com essas curvas...(Acaricia o rosto dela) deixa ele ou ela vir… será como uma bruma leve…(acaricia a barriga dela a convidando a bailar.

AURORA E CREPÚSCULO: (cantam fazendo coreografia ao redor deles) Na bruma leve das paixões que vêm de dentro Tu vens chegando pra brincar no meu quintal no teu cavalo peito nu cabelo ao vento e o sol quarando nossas roupas no varal Tu vens, tu vens eu já escuto os teus sinais a voz do anjo sussurrou no meu ouvido e eu não duvido já escuto os teus sinais que tu virias numa manhã de domingo eu te anuncio nos sinos das catedrais... (Saem)

ADRIANA, PATRICIA E KELLY (COM 8 ANOS) ENTRAM TRAZENDO VÁRIAS BRINQUEDOS.

JAQUELINE VOLTA TRAZENDO A FILHA NOS BRAÇOS.

ADRIANA, PATRICIA E KELLY: (cantam) Feche os olhos, meu bem/ Não há nada que possa te assustar/ Não há medo que te impeça de sonhar/ Feche os olhos, meu bem/ Não há nada que possa te assustar/ Não há medo que te impeça de sonhar/ Como penas bailando levemente no ar/ Cantarei docemente/ Nada vai te acordar

ADRIANA, PATRICIA, KELLY e JEFFERSON RETORNAM

JEFFERSON: (recita tomando a filha nos braços) Imagine que não há paraíso... É fácil se você tentar ... Sem inferno embaixo de nós... Acima apenas o céu

CREPÚSCULO E AURORA RETORNAM VESTIDOS COM AS CORES DO ARCO ÍRIS

CREPÚSCULO E AURORA: Imagine todas as pessoas vivendo o dia de hoje...

CREPÚSCULO: Imagine que não há países... Não é dificil de imaginar… Nada para matar ou morrer... Por nenhuma religião também…

AURORA: Imagine todas as pessoas vivendo em paz…

JAQUELINE: Você pode dizer que somos sonhadores, mas não os únicos

JEFFRSON: Eu espero que um dia você se junte a nós, e o mundo será um so.

KELLY: Imagine que não há bens materiais... Eu imagino se você consegue

ADRIANA: Sem necessidade para ganância ou fome, uma fraternidade de homens, uma sociedade sorórica de irmãs!

PATRICIA: Imagine todas as pessoas, dividindo o mundo inteiro

AURORA: Você pode dizer que somos sonhadores,

TODAS: Nós não sou as únicas

CREPÚSCULO e AURORA: Eu espero que um dia você se junte a nós, e o mundo vivera como um só!

CANTAM A MÚSICA IMAGINE, BAILAM DISTRIBUINDO ROSAS BRANCAS AO PÚBLICO.

Fim.

Lúcia Martins Peixoto

São Paulo, 20 de março de 2003



ANTOLOGIA POÉTICA NA PEÇA “QUATRO GAROTAS E UM DESTINO”

Cecília Meireles: No mistério do sem-fim

No mistério do sem-fim
No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta

Cecília Meireles: A Doce Canção

Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade – e não pena.

Anjos de lira dourada
debruçaram-se da altura.
Não houve, no chão, criatura
de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.

Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos.
Um arco-íris de alegria
da minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.

O mistério do meu canto,
Deus não soube, tu não viste.

Prodígio imenso do pranto:
– todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

Por assim tão docemente
meu mal transformar em verso,
oxalá Deus não o ausente,
para trazer o Universo
de pólo a pólo contente!

Florbela Espanca: Volúpia

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A nuvem que arrastou o vento norte…
– Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…

Casimiro de abreu: Meus oito anos

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus —
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

................................

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

Vinicius de Moraes: O filho do homem

O mundo parou
A estrela morreu
No fundo da treva
O infante nasceu.

Nasceu num estábulo
Pequeno e singelo
Com boi e charrua
Com foice e martelo.

Ao lado do infante
O homem e a mulher
Uma tal Maria
Um José qualquer.

A noite o fez negro
Fogo o avermelhou
A aurora nascente
Todo o amarelou.

O dia o fez branco
Branco como a luz
À falta de um nome
Chamou-se Jesus.

Jesus pequenino
Filho natural
Ergue-te, menino
É triste o Natal.

Olavo Bilac : Primavera

Ah! quem nos dera que isso, como outrora,
Ainda nos comovesse! Ah! quem nos dera
que inda juntos pudéssemos agora
ver o desabrochar da primavera!

Saíamos com os pássaros e a aurora,
e, no chão, sobre os troncos cheios de hera,
sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
"Beijemo-nos! amemo-nos! espera!"

E esse corpo de rosa recendia,
e aos meus beijos de fogo palpitava,
alquebrado de amor e de cansaço...

A alma da terra gorjeava e ria...
Nascia a primavera...E eu te levava,
primavera de carne, pelo braço!

Rubem Alves: Jardim

“… Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade.”

Alceu Valença: Anunciação

Na bruma leve das paixões que vêm de dentro
Tu vens chegando pra brincar no meu quintal
No teu cavalo, peito nu, cabelo ao vento
E o Sol quarando nossas roupas no varal

Na bruma leve das paixões que vêm de dentro
Tu vens chegando pra brincar no meu quintal
No teu cavalo, peito nu, cabelo ao vento
E o Sol quarando nossas roupas no varal

Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido, já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo

Eu te anuncio nos sinos das catedrais
Tu vens, tu vens…
Na bruma leve das paixões que vêm de dentro
Tu vens chegando pra brincar no meu quintal
No teu cavalo, peito nu, cabelo ao vento
E o Sol quarando nossas roupas no varal

Tu vens, tu vens…

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido, já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais

Tu vens, tu vens…

Imagine: John Lennon e Yoko Ono

Imagine que não exista paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno sob nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo o presente

Imagine que não há países
Não é difícil
Nenhum motivo para matar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer que sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu espero que algum dia você se junte a nós
E o mundo será um só

Imagine que não existam posses
Eu me pergunto se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade dos homens
Imagine todas as pessoas

Compartilhando o mundo inteiro

Você pode dizer que sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Eu espero que algum dia você se junte a nós
E o mundo viverá como um só

O encantamento e a emoção de recontrar uma filha depois de 23 anos da concepeção.

Lúcia Peixoto
Filósofa, Professora de Filosofia,
Poeta, Artesã, Bacharel em Ciências da Religião,
Licenciada e Pós Graduada em Filosofia,
Pós-graduanda em Arteterapia

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