Peça Prelúdio do Apocalipse: Autoria Lúcia Peixoto

PEÇA: Prelúdio do Apocalipse

AUTORIA: Lúcia Martins Peixoto

A peça conta a saga de um grupo de jovens no final da década de 80, liderados por Mente (Rebelde de muitas causas) o grupo se vê diante do desafio de sobreviver às drogas, a AIDS e a morte. 


(Credito do Desenho: Henrique G. Silva (Max)

1ª CENA: MENTE ESTÁ MUITO DOENTE, A FEBRE ALTA O FAZ MERGULHAR EM UM MUNDO DE TERRÍVEIS ALUCINAÇÕES.

MENTE: Ah! Liberdade... depois de ter lutado contra os ventos dos quatro cantos do mundo... Meu mundo agora parece o cenário cômico do idiota que pensa ser alguém... um idiota que pena ser alguém... Eu sou só mais um cara, cansado de correr na direção contrária... (Acende uma vela, tossindo muito). Que triste monólogo... às luzes se apagam... o pano não tarda a cair... é o “Grã finale” O fim do grande Mente... Ah! Droga... Dama fria, maldita companheira... Heroína que me roube a fatídica vida...

ENTREGA-SE AO DELÍRIO, SENDO MAIS UMA VEZ SEDUZIDO PELA DROGA.

DROGA: Sim, Mente sua inútil vida me pertence... Eu sou sua heroína...A mesma maconha que primeiro te seduziu, a cocaína que te aprisionou...a morfina que alivia a tua dor...

MENTE: Droga maldita... devolva minha vida!

DROGA: Você me entregou sua vida... e agora eu dou-te a morte!

MENTE É ENVOLTO PELA MORTE

MORTE: É chegada a hora Mente... deves me seguir agora, como tantos outros amigos seus...

DROGA: Os escravos que dominei... e nos braços da morte joguei! Seus tolos amigos, Mente... todos os que pela vida errante porfiar seguindo-me o funesto rastro...(Sai triunfante)

MORTE: Eu sou seu último alívio... bálsamo para todas as dores...

MENTE: Morte!... para onde me queres levar? Para onde foram todos os outros... Poeta... Dedé!!!

MORTE: Não tenho pressa... vou e volto... num eterno e sombrio bailar! (sair)

MENTE: Dedé... responde poeta... este silêncio ensurdecedor me apavora... responde poeta... eu posso ver-te nas sombras da morte.

SURGE O ESPECTRO DE DEDÉ ENVOLVOLTO PELA DROGA E PELA MORTE EM UMA TENEBROSA COREOGRAFIA.

DEDÉ: Porque clamas por mim Mente... escolhemos nosso próprio caminho... Este caminho é tão fácil seguir, por não ter onde ir... é só mais um a viagem poeta, um salto no desconhecido, um passo rumo à eternidade!

MENTE: Dedé... meu desgraçado amigo....

DEDÉ: Companheiro de infortúnio... por que temes a morte, depois de ter maltratado tanto a vida?

MENTE: Como pode terminar assim... depois dos sonhos que sonhamos?

DEDÉ: Depois de ter lutado contra os ventos dos quatro cantos do mundo...

MENTE: Dormido tendo a lua por amante e o sereno como cobertor...

DEDÉ: Despertado ouvindo o canto dos pássaros em alvorada... sentindo os primeiros raios do sol aquecendo nossas faces... (mente recita junto) Depois de navegar por mares desconhecidos como piratas em noites de tempestades.. em busca de tesouros imaginários... (É levado pela Morte)

MENTE: ainda não Morte... Dedé... de onde vêm os golpes que me machucam por dentro e por fora? Para onde fugir? A quem pedir ajuda... Parece que tudo acabou... mas, ainda me resta uma gota de esperança... Esperança, o que estou fazendo aqui, armado até os dentes para combater em uma guerra que não inventei... como pode haver guerra, se só desejei a paz?

É ENVOLTO PELA ESPERANÇA, E PELA VIDA

ESPERANÇA: Mente, Mente! Todo fim não passa de um recomeço... liberte-se das correntes imaginárias, pare de combater o inimigo que está dentro de você mesmo... vida e morte estão sempre juntas... você nasceu livre... todos os seres nascem livres, livres como as nuvens que flutuam como algodão ao vento… livres como o vento incessante que sopra onde quer... infeliz daquele que não é capaz de ler os sinais do tempo no livro das constelações, e como profetas irromper cavalgando revoluções!

MENTE: Esperança... Vida... liberdade..

VIDA: É chegada a verdadeira liberdade... Ser livre Mente é ter coragem de não desistir jamais, de aceitar os desafios, sem se incomodar com o presente sóbrio...

MENTE: O presente... fruto do passado que plantei... Tudo isso é ilusão... alucinação...(Os quatro espectros fazem coreografia ao redor dele) droga, morte, esperança...vida... minha vida de prazeres altos e consequências caras...(Pega um seringa e aplica na veia, Vida e Esperança se distanciam) Orfeu, Orfeu deus do sono! Leve-me a realidade tirana... devolve-me os dias felizes da minha juventude! (adormece. Morte e Droga se retiram).

CAI A LUZ. VIDA E ESPERANÇA EMBALEM SEU SONO.

VIDA: Juventude e liberdade, é quase impossível não associar essas idéias, mas a liberdade é muito anterior a juventude e transcende-a para mais além...

ESPERANÇA: Deve existir nos homens um sentimento profundo que corresponda a essa palavra “Liberdade!!!” Sobre ela se tem escrito poemas e hinos, a ela se têm levantado estátuas e monumentos, por ela se têm morrido com alegria e felicidade.

VIDA: Diz-se que o homem nasceu livre, que a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade de outrem: que onde não há liberdade não há pátria: que a morte é preferível à falta de liberdade: que renunciar a liberdade é renunciar a própria condição humana: que a liberdade é o maior bem dom mundo, É oposto a fatalidade e a escravidão!

ESPERANÇA: Nossos bisavós gritavam: liberdade, Igualdade e Fraternidade! Nossos avós cantavam: Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil!... Nosso pais pediam, Liberdade, Liberdade! Abra as asas sobre nós!

VIDA: E nós ainda acreditamos?... que o sol da liberdade em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria?... Em algum instante?

ESPERANÇA: Somos criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposição de cantá-la, amá-la combater e certamente morrer por ela...

VIDA: Ser livre como diria o famoso conselheiro é não ser escravo; é agir segundo a nossa cabeça e o nosso coração para encontrar o caminho... enfim, ser livre é ser responsável, é repudiar a condição de autômato e teleguiado... é proclamar o triunfo luminoso do Espírito...

ESPERANÇA: Supondo que seja isso... Ser livre é ir mais além...

VIDA: Buscar outro espaço, outras dimensões!

ESPERANÇA: É ampliar a órbita da vida... (Saem)

2ª CENA: EM SEU DELIRANTE SONHO, MENTE TRAZ DE VOLTA OS AMIGOS E A VIDA DE PRAZERES ALTOS E CONSEQUÊNCIAS CARAS.

(Os amigos Chegam a casa de Mente, um casebre num velho sítio, para uma festa em comemoração ao seu aniversário: Marcos, Flavia, Cris, Paulo, Claudia, Kaká e Daniela)

MARCOS: Mente, ei... Mente...sai da toca meu!

CRIS: Qual é Mente! Ta afim de brincar de esconde, esconde?

DANI: Que lugar horrível... alguém pode ascender a Luz

CLAUDIA: Tá aí...gostei... Isso parece cenário de filme de terror...

PAULO: (Acendendo um fósforo) Alguém quer fazer o favor de acender a luz...

FLÁVIA: Ai, Marcos, eu estou ficando com medo...

MARCOS: Medo de que Flavinha?...o Mente deve ter esquecido de pagar a conta da luz... a gente vai fazer a maior farra aqui no escurinho...

KAKÁ: É isso aí Marcão... (Agarrando Claudia) Este final de semana vai ficar na história...

MENTE TRAZENDO UM LAMPIÃO E UMA GARRAFA DE BEBIDA. SALTA NO MEIO DO GRUPO, QUE SE ASSUSTA.

MENTE: Sejam bem vindos ao palácio dos prazeres... (Agarrando Dani)

DANI: Me solta ... Que brincadeira de mal gosto... quase mata a gente de susto....

FLÁVIA: Você é maluco cara? Não tem luz aqui não?

MENTE: (toma um grande gole, Jogando a garrafa para Marcos) Eu sou a luz do mundo... Segura Marcão...quem são as figurinhas?

MARCOS: (Tomando um gole) Flávia minha namorada... E essa é Dani... uma amiga

KAKÁ: E essa é a Claudia...

CLÁUDIA: Feliz aniversário Mente... adorei o seu palácio...

MENTE: Kaká… (Examinando o corpo de Dani) tem bom gosto garoto...sejam bem vindas senhoritas... Criszinha...(Beijando-a)

CRIS: (Se esquiva sem jeito) Oi Mente.. Feliz aniversário... este é o Paulo, ele veio comigo.

MENTE: (Contrariado ao reconhecê-lo) Paulão... seja bem vindo ao palácio dos prazeres!

PAULO: Mundo pequeno em Mente...

CRIS: Vocês se conhecem?

MENTE: O Mundo é um círculo giratório... por mais que se tente fugir sempre se volta ao mesmo ponto... ( beija Cris novamente) Não esquenta benzinho... o Paulão tá acostumado a comer no mesmo prato que o Mente...

PAULO: O mesmo cafajeste de sempre... Eu acho que eu não deveria ter vindo Cris... bom te ver Mente... oi e tchau! (saindo)

CRIS: (Segurando-o) Pega leve Mente... espera Paulo...

CLAUDIA: Que horas começa a festa? (Se insinuando para Mente)

MENTE: (Dando-lhe uma garrafa) É pra já benzinho... já que tá aqui...relaxa e goza Paulão...( Puxa Claudia para um canto)

PAULO: Desculpa Cris… eu vou nessa... feliz aniversário Mente! (sai)

CRIS: Calma Paulo... vamos conversar... (Saí atrás dele)

FLÁVIA: Claudia... (puxando-a) Você está maluca? Dando em cima do Monte na frente do Kaká...

CLAUDIA: Se liga Flávia... (Pegando a garrafa que Mente lhe oferece)

KAKÁ: Qual é Claudia, eu pensei...

CLAUDIA: Você pensa demais... eu quero me divertir...

FLÁVIA: Não vai beber isso Claudia!?

CLAUDIA: Aí não quero ninguém me enchendo o saco... ta parecendo minha mãe... ( Imitando a mãe) Claudia não faça isso, não faça aquilo, não beba...não fume (Toma um grande gole) não atravesse a rua sem olhar, não namore com marginais...

MENTE: Corta essa de namoro... (abraçando-a) vamos lá pra capelinha do Mente, vou te mostrar como a gente se diverte por aqui...

CLAUDIA: Que papo é esse de capelinha?

KAKÁ: É melhor ir devagar Claudia...

MARCOS: O Mente já foi coroinha... já ensinou o catecismo pra muita menina moça

MENTE: Leva a mal não Kakà... caiu na rede é peixe... (Sai abraçado com Claudia)

DANI: Eu não acredito que cafajeste....

FLÁVIA: Que tipo de festa é essa Marcos?

MARCOS: Relaxa benzinho... aí Kaká, mostra o resto da casa pra Dani...

KAKÁ: (Tomando um grande gole) É isso aí... vamos nos divertir!

DANI: Eu não acredito, sua namorada sai dando o maior mole pro Mente, e você não vai fazer nada...

KAKÁ: A vida é assim... ninguém é dono de ninguém... a Claudia que se dane (Sai)

DANI: Na boa Marcos... essa você me paga...(Sai furiosa)

MARCOS: Maior freirinha essa sua amiga... Vem cá benzinho... vamos começar nossa festinha.... (Tentando beijá-la)

FLÁVIA: Corta essa de Benzinho... você fica ridículo tentando imitar esse idiota do Mente...

MARCOS: O Mente é o maior barato é meu mano... vem cá, vamos aproveitar...

FLÁVIA: Se foi só pra isso que me trouxe aqui, pode me levar de volta... eu pensei que você gostasse de mim Marcos... que decepção ... (sai magoada)

MARCOS: (Bebendo mais) aí meu saco... será que vou ter que casar pra comer essa mina...

CHEGA O RESTANTE DA TURMA (Dú, Silvia, Carla e Rose)

DÚ: Alguém falou em comer?

MARCOS: Grande Dú...sempre bem acompanhado... (Beija as meninas se encantando com Silvia, que retribui)

CARLA: Cadê o Mente?

MARCOS: O Mente está mostrando a Capelinha pra Claudia...

DÚ: Hoje o Mente vai se esbaldar...

MENTE RETORNA

MENTE: Alguém me chamou? Agora sim a festa vai começar... (Ficando sério ao olhar para Carla) Carla... que bom que veio...

CARLA: Mente ( se abraçam) como é que você está?

MENTE: (Livra-se do abraço, disfarçando a emoção) Senhoritas bem vindas ao meu humilde palácio...

ROSE: Muito prazer Mente... o Dú falou de última hora, não deu nem tempo de comprar presente...

MENTE: Você é o melhor presente!

DÚ: No capricho... (piscando malicioso)

SILVIA: Eu queria trocar de roupa... você não mora Mente, você se esconde, estou toda empoeirada....

MARCOS: Pode deixar que eu te ajudo princesa... (sai carregando a mochila dela)

MENTE: Este é o Marcão que eu conheço... (abraçando Rose) O Sérgio não veio com vocês?

CARLA: Ele já deve estar chegando... eu tenho tanta coisa pra te dizer Mente...

DÚ: Aquele Sérgio é um porre... com esse papo de Grêmio estudantil, manifestação e o “caralho a quatro”... porra meu, não sei como um cara assim dos meus... (abraçando Mente) Pode ter relações com um “rapaz como aquele”.

ROSE: Que papo é esse? O Mente está tendo relações com o Sérgio?

MENTE: O Sérgio é meu chapa, mano do peito...

CARLA: O Sérgio é o Mente que deu certo... tenho tanta saudade daquele tempo Mente...

CLAUDIA: (Abraçando Mente) Qual é Mente... estou te esperando para terminar aquela conversinha...

CARLA: Você não é a namorada do Kaká?

CLAUDIA: Eu não sou namorada de ninguém... a minha conversa é com o Mente ta.

ROSE: (se mostrando interessada em Mente) Por que disse que o Sérgio é o Mente que deu certo Carla?

CARLA: Os quatro cavalheiros do apocalipse! Lembra Mente, quando ganhou a presidência do Grêmio do colégio?

DÚ: Não acredito, o Mente presidente do Grêmio?

ROSE: Eu acho um barato... a galera lá do colégio faz o maior agito.

CARLA: A Gente também fazia... o Mente o Sérgio o Dedé e o Paulo.

CLAUDIA: O Paulo da Cris?

MENTE: (Toma um grande cole e levanta a garrafa ao ar) Um brinde ao meu amigo Sérgio... que ainda vai ser presidente desta merda de república!

DÚ: (Imitando) Um brinde a Merda da República!

CLAUDIA: Um brinde a todas as merdas do mundo!

CARLA: (quebrando a cena) Um brinde ao Dedé!

MENTE: (Jogando a garrafa vazia) Um brinde a Carlinha, que tá afim de acabar com a merda dessa festa... (Sai).

ROSE: Por que ele ficou tão bravo?

CLAUDIA: Quem é esse tão de Dedé... todo mundo fica na maior neura quando se fala nele?

CARLA: Por que perguntou se era o Paulo da Cris?

CLAUDIA: O Cara que veio com a Cris, mó misterioso... chato pra caramba... já chegou implicando com o Mente... ei Mente...(Sai)

ROSE: Eu é que não estou entendendo nada

DÚ: Esquenta não Rose... o Mente já volta pra te dar um trato...

ROSE: Não seja cafajeste Dú... cadê o resto da galera? (sai)

CARLA: Será que é o mesmo Paulo?

DÚ: (Abraçando-a) Vamos fazer um brinde ao prazer!

CARLA: Sai fora Dú... me solta!

DU: Qual é minha? Vai querer dar uma de santinha agora?

CARLA: (Empurrando-o) Você é um coitado, fica ai venerando o Mente... se você soubesse... se todos vocês soubessem...

DÙ: (Agarrando-a) Para de frescura... entrou na chuva é pra se molhar, veio na festa do mente em que transar...

CARLA: Me solta...

PAULO E CRIS RETORNAM

PAULO: (Jogando Dú longe) Solta ela...

CRIS: Ficou maluco Eduardo?... Você está bem Carla?

CARLA: Paulo... meu Deus… é você Paulo?

PAULO: (Abraçando-a) Minha querida...

DÚ: Já tô sacando… o lance aqui é suruba a três...

PAULO: (Indo pra cima dele) Seu cafajeste...

CRIS: Pára Paulo... a Carla tá cansada de saber o que rola nas festas do Mente... se estava sozinha aqui com o Dú era porque tava afim...

DÚ: (Empurrando Paulo) Paro a viadagem... não bota a mão em mim... a mina cansou de dar pró Dedé na frente de todo mundo, o cara morreu vai ficar regulando por que?

PAULO: ( dando-lhe um soco) Lava a boca pra falar do Dedé...

CRIS: Pára Paulo... sai fora Dú...

DÚ: Ai... isso não vai ficar assim não...

CRIS: Sai Dú...

DÚ: Tu não sabe com quem ta mexendo... depois a gente se entende Carlinha...(Joga um beijo pra ela e sai)

CRIS: Agora será que alguém pode me explicar o que tá rolando aqui?

CARLA: Cris.... vem cá... me dá um abraço amiga... (Chorando descontrolada)

CRIS: Calma Carla... o Dú é um idiota...

CARLA: Cris... Paulo...

PAULO: Calma Carla... vai ficar tudo bem...

CARLA: Cris... a gente se ferrou cara.... Paulo você e ela...

PAULO: Não... o Sérgio me procurou... ele me contou tudo

CRIS: O Sérgio? Contou tudo o que? Paulo... Os quatro cavalheiros do apocalipse! É você? Por que não me contou?

PAULO: Eu ia contar...

CRIS: Você me usou, pra se aproximar da galera? Eu pensei que você fosse diferente... você é igualzinho o Mente... (toma um grande cole e joga o copo, quase acertando Sérgio que está entrando)

SÉRGIO: Ei!!! Já começou a Revolução?

CRIS: O que foi que você contou pro Paulo, Sérgio? Por que mandou ele se aproximar de mim?

SÉRGIO: Ola Cris... acabei de chegar... da um braço no seu amigo... (abraçando-a quase a força)

CARLA: Ela precisa saber...

CRIS: Droga Carla! Saber o que? Fala Carla... o que é que tá pegando Sérgio?.. Fala Paulo...

PAULO: Eu vou falar... (pegando a garrafa que está nas mãos dela) Sem bebida ta...

SÉRGIO: Vem cá Carla... (abraçando-a) Deixa o Paulo falar com ela

CARLA: Fica calma tá Cris... (Sai correndo)

SÉRGIO: Valeu Paulão, eu sabia que podia contar com você... vai ficar tudo bem Cris, a gente tá junto nessa... eu vou lá falar com a Carla, escuta o que o Paulo tem pra te dizer. (sai)

CRIS: Eu estou esperando...

PAULO: Olha só Cris... me desculpa, não foi por acaso que a gente se encontrou...

CRIS: Desgraçado!

PAULO: Eu, o Sérgio, o Dedé e o Mente a gente cresceu junto... os quatro cavalheiros do apocalipse!!!

CRIS: Eu nunca podia imaginar que fosse você... o Mente te odeia... por que?

PAULO: É uma longa e dolorosa história...

CRIS: Me conta... o que tudo isso tem a haver com morte do Dedé?

PAULO: Dedé... um grande poeta... ele era um cara muito especial... Você tem razão... eu sou igual ao Mente... um idiota que colocou a vida dentro de uma mochila, e saiu pelo mundo em busca da liberdade... eu foi o primeiro Cris... o primeiro a cair nas garras da droga!

CRIS: Mas você já saiu dessa...

PAULO: É difícil sair... Eu destruí todas as pessoas que eu amava... ela me roubou tudo, minha família, meus sonhos, meu amor próprio... eu ainda não me libertei ... ela está por toda parte... dia e noite , a droga Maldita, mil vezes maldita... trazendo de volta os fantasmas do meu passado...

CAI A LUZ. PAULO É ATORMENTADO POR SEUS FANTASMAS. (Sua irmã, sua namorada e a droga)

DROGA: Vem Paulo... o prazer te espera... a liberdade... vem Paulo!

IRMÃ: Não vá Paulo... por favor meu irmão... volta pra casa... Paulo a mamãe está doente... volta pra casa meu irmão...

DROGA: Esquece a família, você é livre Paulo... vem...

NAMORADA: Paulo, eu te amo... eu estou grávida Paulo... eu vou ter um filho teu meu amor...

DROGA: Família amor... responsabilidade... você não quer nada disso meu amor... eu sou sua liberdade!

IRMÃ: Não Paulo... volta, a mamãe está morrendo... ela chama por você o tempo todo... o pai te perdoa... volta meu irmão...

NAMORADA: Não me abandone Paulo... eu estou grávida... é seu filho Paulo... volta pra gente...

DROGA: Vem Paulo...só eu posso te dar liberdade... prazer...prazer Paulo!!!

IRMÃ: Paulo... a mamãe está morrendo...

NAMORADA: Eu estou perdendo o nosso filho... nós matamos o nosso filho Paulo...

AS TRÊS: (Vão se afastando deixando muito perturbado) Paulo...Paulo...Paulo... Vem Paulo...

CRIS: Paulo... Paulo querido... já passou... você tem que esquecer o passado...

PAULO: Esquecer? Não, eu não posso eu não quero esquecer, são as lembranças que me dão força... para lutar contra ela... vocês estão cometendo os mesmos erros que eu cometi, estão seguindo para o mesmo precipício... você Cris... onde está sua família, você avisou sua mãe que vinha pra cá?... minha mãe morreu Cris, chamando por mim... volte Cris, enquanto ainda tem pra quem voltar...

CRIS: Eu vou te ajudar a esquecer... as feridas vão cicatrizar, eu posso te ensinar a amar de novo...

PAULO: Você não entendeu Cris, eu deixei que minha mãe morresse por egoísmo, eu seduzi uma menina de 14 anos, eu a engravidei e a obriguei a fazer um aborto... ela morreu nos meus braços enquanto perdia o nosso filho...

CRIS: Chega Paulo, por favor...

PAULO: Me desculpa... (Abraçando-a) você ainda é uma criança

CRIS: Eu não sou mais criança... eu já comi o pão que o diabo amassou nessa droga de vida... eu briguei com a minha mãe sim... eu não quero ser como ela... ela sempre fez tudo direitinho... sempre preocupada com a casa, com os filhos, com o marido... meu pai morreu num acidente de trabalho sabia, caiu de cima de um prédio... até hoje não saiu a merda da indenização... minha mãe envelheceu, e ficou neurótica trabalhando dia e noite pra gente não passar fome... é pra essa vida que você quer que eu volte?

PAULO: Cris...

CRIS: O que tudo isso tem a haver com o Mente e com a morte do Dedé? Fala Paulo.

MARCOS, SILVIA, ROSE E KAKÁ , ENTRAM ANIMADOS

ROSE: Então esse é o famoso Paulo?

PAULO: Desculpa Cris... eu não deveria ter vindo... (sai)

SILVIA: Nossa que clima... se tá legal Cris?

CRIS: Eu também não deveria ter vindo...

KAKÁ: Qual é Cris... isso aqui é uma festa... vamos nos divertir...

MARCOS: Vamos agitar essa festa... toca ai Kaká... que a Silvinha tá afim de cantar...

KAKÁ: Legal Silvia... a Cris também canta muito bem... a Cris leva o maior rap...

CRIS: Eu to mal galera... Tá rolando o maior clima cara... A Carla tá mal pra caramba... o Sérgio chegou com um papo estranho... e agora o Paulo resolveu pirar também... eu preciso saber o que está acontecendo. (sai)

ROSE: Parece que tá todo mundo meio estressado por aqui...

FLÁVIA: Olha lá Dani... Aquela Silvia, se esfregando no Marcos...

DANI: Essa galera não tem nada haver com a gente Flávia... eu acho que você deveria repensar esse seu namoro com o Marcos... eu não quero passar o final de semana aqui neste fim de mundo...

KAKÁ COMEÇA A TOCAR. MÚSICA SOMOS JOVENS AINDA.

KAKÁ: (Canta) 

Depois de tentar escrever várias canções

Achei bem melhor escrever algo mais simples

Com essa pretendo chegar aos seus corações.

Queremos tentar explicar o que nos atinge.


Somos jovens ainda

Vamos tentar mais uma vez

Somos Jovens ainda

Vamos tentar novamente…


Iremos te apresentar a realidade,

Mas como tentar explicar se ninguém nos dá ouvidos

Iremos nos expressar

Mostrar nossa capacidade...

Somos jovens ainda

para tentar mais uma vez

Somos jovens ainda

Vamos tentar novamente

SILVIA: Bonito… mas vamos levar um Rap... cutir uma maresia...

ROSE: E aí Mente a fim de curtir uma ... ta a maior lua lá fora...

CLAUDIA: Você é muito oferecida em garota...

ROSE: Por que não cuida do seu namoradinho.. (Abraçando Kaká) O Kakazinho está precisando de um trato...

KAKÁ: Me deixa fora dessa falo... E aí o Rap sai ou não sai...

DÚ: Ai, Marcão... quem tá afim de levar um Rap...

MENTE: Ai Mano, ta na minha praia... (abraçando Rose)

CLAUDIA: (enciumada) Galinheiro, você quer dizer Mente...

FLÁVIA: Pelo jeito Galinha é o que não falta por aqui, não é Marcos?

MARCOS: (Abraçando Sílvia) eu sou mais um pagodinho romântico pra dançar assim agarradinho...

FLÁVIA: (Agarrando marcos pelo braço) Solta essa Galinha Marcos...

MARCOS: Ai mais respeito com a minha amiga...

SILVIA: Não folga comigo não Mina...

FLÁVIA: Cala a boca... eu estou falando com o meu namorado...

MENTE: (Gargalhando com gosto) Eu te avisei Marcão...esse lance de namoro...

SILVIA: Desculpa... eu não tinha visto a placa de comprado... vai lá acalmar sua namoradinha Marcos... eu não to afim de confusão (abraça Dú) Manda o rap Dú, que essa festa não tá com nada...

FLÁVIA: Eu quero ir embora Marcos...

MARCOS: Pó Mozinho... é só amizade... não precisa ficar com ciúmes...

DANI: Ele está bêbedo Flávia... vem... (SAEM)

MARCOS: Essa sua amiga não sei não... qual é a tua Mina?

DANI: Com certeza não é a mesma de vocês. (sai)

FLÁVIA: A Dani é que tá certa... (sai)

MARCOS: Pera ai Flavia...

MENTE: Corta esse de namoro Marcão... é minha festa de aniversário… (Dando-lhe a garrafa)

DÚ: É isso grande Mente... (Improvisando um rap) Entrando em conexão... se liga patricinhas... aqui não é Shopping Center... se liga nesse rap, que é a realidade, realidade de maluco, mente alucinada, aqui não tem histórias de príncipe encantado... Aqui é nosso mundo... submundo, gueto de branco e de preto, entrou a porta fechou, não tem mais saída... foda-se o mundo... papai mamãe foda-se tudo... a polícia na porta, traficante, drogado, marginal... seu filho agora ta no submundo, submundo do crime, submundo da droga...

SILVIA: Gueto de branco, gueto de preto, gueto de mano, gueto de mina, gueto de gente... guento do Mente, mente alucinada, aqui não tem lei é só liberdade... liberdade de falar, liberdade de amor...

SÉRGIO: (Cantando) Comunidade do Gueto estou chegando...

MENTE: Com todo respeito, dando passagem pro meu mano MCs Sérgio...

SÉRGIO: Meu irmão Mente... Galera do Gueto... manos, minas... olha pra fora, pra fora do Gueto... estou chegando... 

ENQUANTO SÉRGIO CANTA TODOS VOLTAM A SALA

SERGIO: Ô, Ô, Ô, Ô, Ô, Deus da mídia deixa burro ilude bate engana, só quer pegar você...

Comunidade norte estou chegando não vim para agitar, muito menos pra alegrar, me desculpe quem não houve cegos são também, abre os olhos camaradas chega de dizer amém.

Acredito numa vida pra que esperar demais se temos consciência que podemos melhorar praticar e transformar, mas isso não fazemos, ou omissos sempre seremos, mude essa cabeça você está estacionado realidade colorida deixa o rosto bem marcado, marcado pela fome violência e opressão, acorda jovem hoje para aprender dizer não, não para a miséria, gringos e corrupção se ficarmos todos quietos e isso que eles querem separados distantes dos problemas, falta de organização.

Querem que eu seja um filho da pátria mãe gentil, rotulado no sistema como acordar contente não ser inconsciente muito menos delinquente, acorda meu Brasil... polícia para quem precisa, polícia pega quem precisa em Brasília sistema falho, máfia da corrupção é corrupção

Jesus Cristo foi crucificado, exemplo santo sociedade problema, e você vai ficar aí parado de braços cruzados? pra que pena de morte com tanta morte sem pena.

Ô, Ô, Ô, Ô, Ô, ... Deus da mídia deixa burro ilude bate engana, só quer pegar você!

CARLA: (Interrompe muito exaltada) Mente, eu quero levar um papo com você... é coisa séria

MENTE: (subindo em um móvel) Eu Mente... declaro! Fica proibido falar sério no palácio dos prazeres...

CARLA: Por favor Mente...

SÉRGIO: Agora não Carla.... ele está bêbado... não dá pra falar sério agora...

MENTE: Aí Serjão... fica terminantemente proibido falar sério... Eu declaro que todos aqui são livres.... livres Paulão, para fazerem o que quiserem...

DÚ: Livres pra beber, dançar, trepar...

MARCOS: Um brinde à Liberdade!!!

SILVIA: (Provocando Flávia) Um brinde ao Amor!!!

MENTE: É proibido ficar sóbrio no palácio dos prazeres...

MARCOS: Me permite mestrança.... eu também quero fazer um brinde...

FLAVIA: Pára com essa palhaçada Marcos...

MARCOS: Como eu estava dizendo... um brinde a liberdade... manda um som romântico Kaká… eu quero dançar... (tirando Silvia para dançar)

KAKÁ: (Canta provocando Flávia  "A vida não presta de Leo Jaime") Você vai de carro pra escola/ E eu só vou a pé / Você tem amigos à beça E eu só tenho o Zé...

CARLA: Pelo amor de Deus Sérgio... eles precisam saber... olha o Mente daqui a pouco ele ta transando com essas meninas, sabe o que isso significa....

PAULO: A Carla tem razão Sérgio...

CRIS: Vem dançar comigo Paulo... adoro essa música...

SÉRGIO: É o aniversário do Mente... vamos comemorar... vai dançar Paulo...

CLAUDIA: E aí presidente me dá a honra dessa dança...

SÉRGIO: Confia em mim Carla... eu estou de olho no Mente... (Carla sai muito abalada) vamos lá Claudia... (Dança com Claudia tentando se esquivar do assédio dela que já está embriagada)

DEPOIS DA MÚSICA PAULO E CRIS SAEM JUNTOS, CLAUDIA ARRASTA SÉRGIO PRA FORA, DÚ PREPARA DROGAS EM UM CANTO. FLÁVIA E DANI ENTRAM PARA SE DESPEDIR.

MENTE: Qual é... pra onde as freirinhas vão?

DANI: Feliz aniversário Mente... desculpa qualquer coisa tá...

MARCOS: Flávia.... onde você vai meu amor...

FLAVIA: Pra mim chega Marcos... (discutem em um canto)

SILVIA: Aí Kaká, vamos fazer um som lá fora... que a coisa vai esquentar por aqui...

KAKÁ: Vamos lá com a Gente Dani... a gente faz uma fogueirinha...

DANI: Vai dá não Kakà... eu liguei pro meu pai ele ta vindo pegar a gente...

ROSE: (Rindo) O papai tá vindo? Essa é demais... vamos lá mente curtir um luau (saem)

DANI: Te espero lá fora Flávia... (sai)

FLÁVIA: Vem comigo Marcos...

MARCOS: A festa mal começou… é aniversário do Mente... ei Mente... cadê o Mente?

FLAVIA: Se você quer acabar com a sua vida Marcos, eu não vou ficar aqui assistindo, eu gosto demais de você pra ficar aqui vendo você seguir os passos desse idiota do Mente... será que você não percebe... esse cara é um mentecapto, as drogas estão acabando com ele, é um caminho sem volta Marcos... pelo amor de Deus... será que não percebe o abismo em que estão caindo?

MARCOS: Vem cá Flavinha... dá um beijinho... (tentando agarrá-la)

FLÁVIA: (O empurra e ele cai) Eu desisto você é um coitado... eu tenho muita pena de você... olha pra você Marcos... eu não vou ficar ao lado de um merda que está se auto destruindo. (sai correndo)

MARCOS: Cadê o Mente... cadê o bagulho... Dane-se a Flávia... tá ouvindo? Dana-se... merda...

DÚ: Aí Marcos... se tiver uma grana... essa é da boa... pó puro...

CLAÚDIA VOLTA DESCONTROLADA

CLÁUDIA: Careta... babaca... é o que você é Sérgio... são todos um bando de babaca...

DÚ: Chega ai Claudinha... ta afim de curtir uma brisa?

CLAUDIA: O Babaca da Mente tá lá se esfregando naquela... Rose... A Flávia... foi embora... Marcos... ela disse que você é um Merda... e eu também... quem ela pensa que é... o Sérgio me dispensou... fala pra mim Marcos... olha só Dú... me acha gostosa?

MARCOS: (Abraçando-a) Se tem uma grana... é pó do bom... dana-se a Flávia a chata da Dani... a gente vai ficar numa boa... a Flávia não sabe de nada... não sabe nada da merda da minha vida... ela disse que eu sou um merda... a vida é uma merda... entendeu... eu não tenho emprego, não tenho grana pra ir pra merda da faculdade... não tive pai...

CLAUDIA: Eu também, não tive pai...você tem Pai Dú?

MARCOS: Minha mãe teve tantos filhos que acho até que esqueceu que eu nasci... essa é a merda da minha vida...

CLAUDIA: Eu tenho grana... agita logo essa merda... o Mente é um merda... é tudo uma Merda... Eu queria ver a cara da minha mãe... minha mãe é neurótica... a vida dela também é uma merda...

MENTE RETORNA

DÚ: Ai grande Mente... pro aniversariante é de graça...

MENTE: Demoro Dú... cadê a Cris... o desgraçado do Paulo, ta com a Cris... a minha Cris... eu já contei pra vocês... Nós éramos os quatro cavalheiros do apocalipse... o desgraçado do Paulo saiu fora... acabou tudo...

DÚ: (Retirando uma seringa de heroína) Essa é especial pra você Mente...

MARCOS: Ai.. eu também quero...depois te dou a grana...

DÚ: O bagulho é caro meu... e o fornecedor, não dá mole, peguei na confiança...

MARCOS: Firmeza Mano...

MENTE: Firmeza... Essas meninas são todas frescas... é meu aniversário e ainda não comi ninguém... A Cris é que é boa... esse pó é do bom... (cheira)

USAM DROGAS, COCAINA E HEROINA, MENTE USA PRIMEIRO, DEPOIS PASSA PARA MARCOS. ENQUANTO A MORTE E A DROGA OS ENVOLVE EM UMA COREOGRAFIA SOMBRIA. CLAUDIA ENTRA EM DELÍRIO.

CLAUDIA: Não... ele vai cair... ele vai cair... mãe... me tira daqui... (Grita alucinada o restante do grupo retorna)

CARLA: O que aconteceu?

CRIS: (Apontando para o grupo) O que é que você acha Carla... deram Cocaína pra ela.

CLAUDIA: Olha lá... eu estou vendo...uma aranha gigante subindo pela parede... mãe... me tira daqui...

CRIS: (Tenta acalmá-la) Calma Claudia...daqui a pouco vai passar...

SERGIO: Droga... Mente... o que é que vocês estão fazendo?

CARLA: Eu avisei Sergio...

SILVIA: A galera pegou pesado...

ROSE: Eu estou fora desses lances... a mina pirou cara...

CLAUDIA: Eles esta lá... o buraco negro... ele vai cair na minha cabeça... os extras terrestres estão vindo... eles vão me pegar...

PAULO: Calma Claudia... a gente tá aqui...

CLAUDIA: Não mãe... não... eu não tive culpa... eu não tive culpa...

CAI A LUZ SURGE A FIGURA DA MÃE (ALUCINAÇÃO)

MÃE: Sua malcriada... por que me desobedeceu Claudia ? você é igualzinho ao seu pai...

CLAUDIA: Não mãe...me tira daqui...

MÃE: Cala a boca... você estragou a minha vida... eu abri mão de tudo por você, deixei de lado todos os meus sonhos pra que você nascesse... o que eu ganho agora... você não me respeita...

CLAUDIA: Eu não pedi pra nascer...

MÃE: Não fala comigo assim... eu preciso sair...

CLAUDIA: não me deixa sozinha... mãe... eu to com medo...

MÃE: Eu vou cuidar da minha vida... não quero ouvir mais uma palavra... eu já perdi tempo demais por sua casa... (sai)

CLAUDIA: Mãe... não me deixe aqui sozinha....

SERGIO: (Abraçando-a com força) Você não está sozinha...

CLAUDIA: Ele vai cair...o buraco...ele vai cair na minha cabeça...

CARLA: Faz ela parar... pelo amor de deus faz ela parar...

PAULO: É o efeito da droga... já está passando... (ajuda Sérgio a deita-la, ela vai se acalmando)

CARLA: Você tem que parar Mente...

SÉRGIO: Agora não Carla... (Joga a droga em cima de Du) Dá o fora com essa merda...

DÚ: Primeiro eu quero minha grana...

KAKÁ: (Pegando o pela camisa..) A gente deveria te entregar para a polícia... a gente pensando que você era nosso amigo... Ei Marcos... o Cara vai morrer tá morrendo...

SÉRGIO: É overdose... leva ele e a Claudia daqui...

PAULO: e você seu traficantezinho de merda...

DÚ: (Apontando uma arma) Tô saindo... em respeito ao Mente... depois eu volto pegar minha grana... a gente se tromba por ai. (sai

SERGIO: Leva eles Kaká... vocês duas vão com eles... (Carregam os dois)

SILVIA: É parece que a festa acabou... (saem)

CRIS: Eu já estou cheia... fala logo Carla... que diabos você tá escondendo?

CARLA: (Tentando reanimar Mente, que está sobre efeito da droga) Mente, acabou cara... acabou Cris...

CRIS: Do que é que você está falando?

CARLA: Cris, o Dedé... o Meu Dedé... ele matou Cris...

CRIS: O Dedé, se matou... por que?

MENTE: O Dedé fez uma viagem... uma viagem Carlinha... ele não morreu... os poetas são como as cigarras... as cigarras não morrem... o mundo precisa do canto das cigarras... eu preciso da poesia...

CARLA: O nosso poeta Mente... o Dedé não suportou... ele não suportou Cris... por que você fez isso meu amor...

CARLA RELEMBRA O MOMENTO DA MORTE DO DEDÉ

DEDÉ: Oh! Minha poesia... tristeza me desculpe... estou de mas prontas, hoje a poesia veio ao meu encontro, já raiou o dia, eu vou viajar... vou indo de carona na garupa leve do vento macio que vem caminhando desde muito longe, lá do fim do mar... vou visitar a estrela da manhã raiada, que pensei perdida pela madrugada, mas que vai escondida querendo brincar...

CARLA: meu amor...

DEDÉ: Senta nessa nuvem clara, minha poesia, anda te prepara traz uma cantiga vamos espalhando música no ar... olha quantas aves brancas, minha poesia, dançam nossa valsa pelo céu que um dia, fez todo bordado de raios de sol... Ó poesia me ajude, vou colher avencas, lírios rosas, dálias pelos campos que você batiza de jardins do céu...

CARLA: Dedé....

DEDÉ: Pode ficar tranqüila minha poesia pois eu volto um dia... numa estrela guia, num clarão de lua quando serenar... ou talvez até quem sabe, eu só voltarei, num cavalo baio, no alazão da noite cujo nome é raio, raio de luar... só lamento minha poesia, não levá-la comigo...

CARLA: Não Dedé...

DEDÉ: Esse é o momento... não tenho forças pra continuar...

CARLA: Não podemos desistir... logo vão descobrir a cura pra essa doença... já descobriram tantos remédios...

DEDÉ: Por que prolongar o desespero de perder-te um dia ou deixá-la neste mundo... eu joguei alto com a vida ela me derrotou...

CARLA: Não Dedé, enquanto houver poesia há vida, enquanto há vida há esperança...

DEDÉ: Eu faço versos como quem chora, de desalento, de desencanto, fecha meu livro se por agora, não tem motivo nenhum de pranto... Meu verso é sangue, volúpia ardente, tristeza esparsa, remorsos vão, dói-me nas veias amargo e quente, cai gota a gota do coração... e nestes versos de angústia rouca, assim dos lábios a vida corre deixando um acre sabor na boca, eu faço versos... como quem morre... (sai correndo)

CARLA: Não Dedé.... AIDS não é o fim..... não é o fim... (Chora desesperada sendo amparada por Sérgio)

SERGIO: Deus... nós de força agora....

CRIS: O Dedé... Aids... (esperando-se)

PAULO: Cris...

CARLA: O Dedé se matou, por que ele estava com AIDS... nós, Mente... estamos contaminados...

MENTE: (Mente alucinado em grande dor) Eu faço versos como quem chora, de desalento, de desencanto, fecha meu livro se por agora, não tem motivo nenhum de pranto... Meu verso é sangue, volúpia ardente, tristeza esparsa, remorsos vão, dói-me nas veias amargo e quente, cai gota a gota do coração... (gritando) Dedé... (cai de joelhos)

CRIS: (Descontrolada) Mente... olha pra mim desgraçado... você usava a mesma seringa do Dedé... e depois me levava pra cama, e transava sem camisinha... quantas vezes eu te pedi... trasar com camisinha é como chupar bala com papel... olha pra mim Mente... (Caindo de joelhos ao lado dele) Diz que é mentira... (agredindo-o) Você acabou com a minha vida seu desgraçado...

PAULO: Para Cris.... (Imobilizando ela entre os braços)

SERGIO: (Amparando Mente) O Mente não tem culpa... ninguém tem culpa Cris... a gente ainda não tem certeza... vocês tem que fazer o teste...

CRIS: Que teste Sergio... acabou... acabou Paulo...

PAULO: Não... Olha só a Carla... ela já começou o tratamento...

CARLA: A gente vai ficar bem... eu estou grávida Cris... Mente... tem um filho do Dedé aqui dentro de mim... o médico disse que ele não vai ser contaminado...

SERGIO: Mente... você sempre foi nosso líder... a gente tá junto nessa...

CRIS: Por que, porque meu Deus?...

PAULO: Vem querida eu vou te levar pra casa....

CRIS: Não... não é justo Carla... não é justo...

PAULO: Vamos sair daqui Carla... o Sérgio cuida do Mente (Sai arrastando Cris)

CARLA: Mente... reage...

SÉRGIO: Não adianta... ele vai precisar de um tempo... vem... (Sai carregando-o)

3ª CENA: AS LUZES SE APAGAM PARA MENTE

SE VÊ ENVOLTO POR ESPECTROS.

1º ESPECTRO: E agora, meu Jovem? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora? E agora você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E agora?

2º ESPECTRO: Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora?

ENTRAM A DROGA E A MORTE

DROGA: E agora? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio... e agora?

MORTE: Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para minas, minas não existe mais. .. e agora?

ESPECTROS: Se você gritasse... se você gemesse... se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse...

DROGA: Mas você não morre... você é duro...

MORTE: Sozinho no escuro qual bicho do mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha... para onde Mente?

TODOS: Para onde Mente????!!!

MENTE: (No escuro) Ó minha vida de prazeres altos e consequências caras, o que foi feito do meu mundo? Deus Oh! Grande mestre da humanidade... onde estais que não me responde? Deus... eu gostaria de saber rezar... Agora que estou só... porque o vento não leva a tristeza, essa dama fria que me envolve agora...  Esse deserto de areia coberto batido pelo tufão. É como uma rocha isolada, pelas espumas banhadas, dos mares da solidão. Nem uma luz de esperança, nem um sopro de bonança em minha fronte sinto passar! Os invernos me despiram e as ilusões que partiram nunca mais hão de voltar. (Desfalece)

TODO O ELENCO ENTRA TRAZENDO VELAS ACESSAS.

(CANTAM “Prelúdio”)

Você tem que abrir os horizontes da sua cabeça

Enfrentar a sua ignorância e se prevenir

Olha essa doença não tem cura, essa droga vai te consumir te tirar de vez sua família e te destruir

Você não pode estar iludido nesse absurdo de submarinos coloridos para enfeitar o mundo

Olha essa viagem não tem volta, e o sonho que você sonhava num segundo estará te levando para outro lugar.

É preciso acreditar na vida

É preciso mais que isso

Vai valer a pena o sacrifício

É preciso acreditar na vida

É preciso muito mais

Vai valer a pena, como vai…

TEXTOS: Gilberto M. Pinto e Henrique Barbosa

POEMAS: Cecília Meireles, João Aquino e Paulo César Pinheiro, Chaqual, e Manuel Bandeira.

MÚSICAS: José Carlos Campos,  Uribatan Rosa, Henrique Barbosa e Léo Jaime. 



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