Deleite literário: O Cinza do Meu Mundo Azul e Rosa de Lúcia Peixoto
"Produzir uma obra literária é como parir um filho.
Depois de iniciada a gestação
Tudo é cuidado.
Contamos as linhas, páginas, capítulos,
Sabendo que pode levar bem mais de nove meses.
Arrumamos o enxoval.
Expectativa de apresentar a criação ao mundo,
Batizar, abençoar.
Por fim,
Acompanhá-la vida afora
Reeditando, se for preciso,
Até que ela seja um legado."
Lúcia Peixoto
Convite ao deleite literário.
O Cinza do Meu Mundo Azul e Rosa apresenta fatos biográficos, abrindo, aqui e ali, brechas para a ficção, uma vez que eu sou declaradamente uma novelista de espírito platônico, ou seja, a veracidade daquilo que se concretizou por vezes confunde-se com o idealizado.Gratidão ao Professor Aldo Santos pela sensibilidade com que apresenta minha obra.
E ao querido Gilmar S. Soares pela belíssima capa.
Aprecie com moderação e adquira o livro.
Prefácio
Concluir a leitura de O Cinza do Meu Mundo Azul e Rosa, da escritora Lúcia Peixoto, no Dia Internacional das Mulheres, em 08 de março de 2026, carrega um simbolismo especial. Trata-se de uma obra que se inscreve no território delicado e profundo das narrativas de vida, nas quais memória, experiência e reflexão se entrelaçam para compor um retrato existencial que ultrapassa o individual e alcança o coletivo.
O livro apresenta elementos biográficos que, em determinados momentos, abrem espaço para a ficção — não como fuga da realidade, mas como recurso de elaboração sensível da experiência humana. A própria autora se revela uma novelista de espírito platônico, em cuja escrita a fronteira entre o vivido e o idealizado por vezes se torna sutil. Assim, o que se lê não é apenas a sucessão de fatos de uma trajetória pessoal, mas a construção de um sentido para a vida a partir da memória, do pensamento e da imaginação.
A narrativa percorre cronologicamente os primeiros momentos da vida da autora, resgatando lembranças familiares e destacando, de modo particular, a presença marcante da figura paterna. João, seu pai, aparece como referência ética e social, enquanto Aurora — cujo nome evoca o amanhecer — simboliza o horizonte de afetos e sentidos que iluminam a narrativa. Não por acaso, a autora relembra o significado de seu próprio nome: Lúcia, derivado do latim lux, isto é, luz. A simbologia da luz atravessa toda a obra, indicando não apenas identidade, mas também vocação para iluminar experiências, memórias e reflexões.
A religiosidade, igualmente, ocupa lugar de destaque na construção de sua trajetória. A referência à pastorinha de Fátima não surge apenas como lembrança devocional, mas como expressão de uma espiritualidade que acompanha a autora ao longo de sua vida. Essa dimensão espiritual dialoga com sua formação filosófica, campo em que Lúcia Peixoto encontra instrumentos para interpretar o mundo e suas contradições.
Nesse percurso intelectual, pode-se evocar simbolicamente a figura de Fenarete, mãe de Sócrates, a parteira de vidas e novas ideias. Tal metáfora ajuda a compreender a vocação filosófica da autora: não a de impor verdades, mas a de favorecer o nascimento de reflexões, leituras críticas da realidade e novos modos de compreender a existência.
A influência do meio social e da militância comunitária de seu pai nas Comunidades Eclesiais de Base marcou profundamente sua percepção de mundo. A experiência concreta da pobreza e das desigualdades sociais aparece no livro com intensidade emocional, sobretudo quando a autora recorda o impacto causado pelo assassinato de Santo Dias, episódio que se torna um marco em sua consciência política e ética diante das injustiças do mundo.
Ao mesmo tempo, a narrativa não se limita ao peso das adversidades. Lúcia Peixoto entrelaça sua trajetória com a musicalidade, a literatura e a reflexão filosófica, construindo uma escrita que alterna densidade e leveza. Esse movimento revela uma formação intelectual marcada por leituras significativas e encontros que ampliaram seus horizontes de pensamento.
Entre essas influências, destaca-se o papel da Igreja progressista e da Teologia da Libertação, que historicamente assumiram posição ao lado dos pobres. Tal perspectiva contribui para a consolidação de uma visão de mundo comprometida com a justiça social e com a dignidade humana, valores que também orientam sua atuação como professora de filosofia da rede pública estadual.
Minha primeira aproximação com a professora Lúcia Peixoto ocorreu em um dos inúmeros encontros dedicados à luta da filosofia. Desde então, foi possível acompanhar sua presença ativa no debate educacional e filosófico, culminando com sua eleição à presidência da Associação dos Professores e Professoras de Filosofia do Estado de São Paulo, reconhecimento de uma trajetória marcada pelo compromisso com a educação, o pensamento crítico e a vida coletiva.
Além de professora, Lúcia Peixoto consolidou-se como autora de artigos, poesias e narrativas literárias. Nesta obra, contudo, ela oferece ao leitor algo ainda mais íntimo: fragmentos de sua própria história. Trata-se, portanto, de uma biografia em construção — um testemunho de vida que permanece aberto, pois a trajetória humana jamais se encerra em um único livro.
Ao leitor e à leitora que se aproximam destas páginas, o convite é claro: conhecer não apenas a história de uma mulher, mas também os caminhos de formação de uma consciência crítica, sensível às dores do mundo e comprometida com o esperançar.
Que esta obra seja lida, portanto, como aquilo que de fato é: um relato de vida, memória e pensamento, no qual sofrimento, resistência e superação se transformam em narrativa — e a narrativa, por sua vez, em luz.
Aldo Santos
Na Bienal do Livro de São Paulo
📅 04/09 — das 18h às 20h
📅 13/09 — das 14h às 16h
📍 Rua J — Estande 76
📚 Distrito Anhembi
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