Viagem para Colibri: Carcarás Conta Cabral (Peça de teatral de Lúcia Peixoto)
Bora viajar...
Poetizar filozafando
com Lúcia Peixoto autora de
Herança Mal Dita*
"... Durante as festividades do aniversário da cidade de Colibri. O Grupo Carcarás liderado por Roberto e Olga Apresentam o espetáculo inspirado no clássico do teatro de Arena “Arena Conta Zumbi”. apresentam uma releitura do descobrimento do Brasil. Simultâneo à apresentação, o Grupo de remanescentes quilombolas e sem terras ocupa parte da fazenda Jequitibá. O Secretário fica furioso com a apresentação, tenta interromper o espetáculo é aconselhado pelo pai a deixar o espetáculo seguir." (PEIXOTO. L, 2025, pg. 214)
Olga representa o Arauto , Vestida com as cores da bandeira nacional, no centro do palco, posicionada como a “Estátua do Cristo Redentor".
Arauto: Filhas e filhos de Colibri não se enganem com as cores que cobrem minha negra pele, tão qual esta terra, fui coberta por esta bandeira, símbolo de nacionalismo do povo brasileiro! O Verde que me vestiram faz memória às florestas devastadas, o amarelo simboliza o ouro de Serra Pelada e tantos outros extraídos e contrabandeados, sob o olhar complacente do Céu azul anil onde voam brancas pombas da paz!
O Coro, sem se mover, numa voz única que sai da terra, declama.
- Carcará ficou preso na terra, Carcará não pode voar para Palmaras... Carcará hoje é beija flor na floresta que queima... Carcará não apaga incêndio... sopra a chama que queima!!!
Arauto: Carcará sussurra as dores da “Pachamama” que clama!
O coro inicia uma coreografia ao redor dela, as cores da bandeira dão lugar a um manto marrom simbolizando a terra devastada. Os carcarás posam ao redor dela.
1ª VOZ DO CORO: (Roberto se destaca do coro, sem a capa, corpo pintado como os nativos, usando somente uma tanga) Foi num dia quente de muito sol... meu povo se banhava no mar... quando as águas se agitaram... o vento soprou mais forte trazendo pra terra firme as tais caravelas... (O coro se agita colocando sobre ele a capa antes usada pelo arauto e voltam a posição inicial)
1ª VOZ DO CORO: (Recitando com sotaque português. Trechos da carta de Caminha) “... A terra em si é de muitos bons ares assim frios e temperados como os de Entre-Doiro-e-Minho. Águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem, porém o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente e esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve lançar". "Andam nus sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa de cobrir nem mostrar suas vergonhas e estão acerca disso com tanta inocência como têm de mostrar no rosto. (...) As moças bem novinhas e gentis, com cabelo mui pretos e compridos pelas costas e suas vergonhas tão altas e tão saradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha.".
Mariana se destaca do coro, caracteriza como nativa.
2ª VOZ DO CORO: (O coro se agita. Mariana “vestida de nativa”, envolta por Carcarás)
Nativa: Lançaram mão da nossa liberdade, cortaram as árvores, abrirem fendas na terra, sobre nossos corpos lançaram aqueles olhares... mãos rudes, bocas sedentas, e pênis Eretos...
Roberto a envolve na capa. Carcarás repetem a coreografia. Os dois “desaparecem ”
Arauto no centro, agora simbolizando a terra agoniza em dores de parto.
Arauto: Portugal, o Brasil desvirginou, Colibri voou pra longe, os homens chamados índios cobiçados para o labor, as mulheres para o prazer... Tiveram seu corpo invadido, em seus ventres plantados os primeiros caboclos que seriam chamados brasileiros!
1ª VOZ DO CORO: (Vestido de caboclo) A história seguiu seu curso no passo firme dos bandeirantes, As matas sendo tombadas a terra virou um braseiro ficou tudo avermelhado e não pela tinta das Árvores, o pau brasil para além mar mandado o vermelho que aqui ficava era de sangue, sangue de nativo que não sabia viver como escravo!
2ª VOZ DO CORO: (Vestida de Sinhá moça) Outros senhores vieram, com suas senhoras de peles claras, vestidas do tornozelo ao pescoço... tão puras e castas eram as sinhás, tão rudes e crueis como seus senhores!
CORO: (SOM DE ATABAQUES, REPRESENTAM “ARENA CONTA ZUMBI” ) Carcará reconta a história do Arena que a ditadura calou... História de gente negra da luta pela razão, que se parece ao presente pela verdade em questão, pois se trata de uma luta muito linda na verdade: é luta que vence os tempos, luta pela liberdade!
Enquanto ouve-se o canto os sem terra ocupam a parte improdutiva das fazendas Jequitibá e Santa Cruz na altura da nascente do pouso das garças.
CORO: Ave Maria cheia de graça. Olorum é convosco. Bendito é o fruto do vosso ventre. Bendita é a terra que plantamos. Bendito é o fruto que se colhe!
Arauto: Ave Maria, bendita seja. Ave Maria cheia de graça, Olorum.
CORO: Bendito é o trabalho neste campo. Bendita é a água que se bebe. Bendita é a mulher de quem se gosta. Bendito é o amor de nossos filhos!
1ª VOZ DO CORO: (AINDA DE CABOCLO) E esse é um pedacinho da história, escrita com muito sangue de índio/nativo, suor do povo africano e também lágrimas das boas almas de Portugal... e lá se vão pra mais de 500 anos, poucos cercaram as terras, muitos foram deixados de fora, e tão por aí, prontos pra tomar de volta o quinhão que lhes foi usurpado.
Coro: cantam e dançam ao redor do arauto, como que a querer devorá-la. Musica Carcará de João do Vale).
Carcará
“Lá no sertão
É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro malvado
Tem o bico volteado que nem gavião
Carcará
Quando vê roça queimada
Sai voando, cantando,
Carcará
Vai fazer sua caçada
Carcará come inté cobra queimada
Quando chega o tempo da invernada
O sertão não tem mais roça queimada
Carcará mesmo assim num passa fome
Os burrego que nasce na baixada
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome
Carcará
Mais coragem do que home
Carcará
Pega, mata e come
Carcará é malvado, é valentão
É a águia de lá do meu sertão
Os burrego novinho num pode andá
Ele puxa o umbigo inté matá
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome
Carcará
Mais coragem do que home
Carcará!”
Peça: Carcarás Conta Cabral
O Coro todos vestidos de Carcarás deitados no chão do palcoOlga representa o Arauto , Vestida com as cores da bandeira nacional, no centro do palco, posicionada como a “Estátua do Cristo Redentor".
Arauto: Filhas e filhos de Colibri não se enganem com as cores que cobrem minha negra pele, tão qual esta terra, fui coberta por esta bandeira, símbolo de nacionalismo do povo brasileiro! O Verde que me vestiram faz memória às florestas devastadas, o amarelo simboliza o ouro de Serra Pelada e tantos outros extraídos e contrabandeados, sob o olhar complacente do Céu azul anil onde voam brancas pombas da paz!
O Coro, sem se mover, numa voz única que sai da terra, declama.
- Carcará ficou preso na terra, Carcará não pode voar para Palmaras... Carcará hoje é beija flor na floresta que queima... Carcará não apaga incêndio... sopra a chama que queima!!!
Arauto: Carcará sussurra as dores da “Pachamama” que clama!
O coro inicia uma coreografia ao redor dela, as cores da bandeira dão lugar a um manto marrom simbolizando a terra devastada. Os carcarás posam ao redor dela.
1ª VOZ DO CORO: (Roberto se destaca do coro, sem a capa, corpo pintado como os nativos, usando somente uma tanga) Foi num dia quente de muito sol... meu povo se banhava no mar... quando as águas se agitaram... o vento soprou mais forte trazendo pra terra firme as tais caravelas... (O coro se agita colocando sobre ele a capa antes usada pelo arauto e voltam a posição inicial)
1ª VOZ DO CORO: (Recitando com sotaque português. Trechos da carta de Caminha) “... A terra em si é de muitos bons ares assim frios e temperados como os de Entre-Doiro-e-Minho. Águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem, porém o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente e esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve lançar". "Andam nus sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa de cobrir nem mostrar suas vergonhas e estão acerca disso com tanta inocência como têm de mostrar no rosto. (...) As moças bem novinhas e gentis, com cabelo mui pretos e compridos pelas costas e suas vergonhas tão altas e tão saradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha.".
Mariana se destaca do coro, caracteriza como nativa.
2ª VOZ DO CORO: (O coro se agita. Mariana “vestida de nativa”, envolta por Carcarás)
Nativa: Lançaram mão da nossa liberdade, cortaram as árvores, abrirem fendas na terra, sobre nossos corpos lançaram aqueles olhares... mãos rudes, bocas sedentas, e pênis Eretos...
Roberto a envolve na capa. Carcarás repetem a coreografia. Os dois “desaparecem ”
Arauto no centro, agora simbolizando a terra agoniza em dores de parto.
Arauto: Portugal, o Brasil desvirginou, Colibri voou pra longe, os homens chamados índios cobiçados para o labor, as mulheres para o prazer... Tiveram seu corpo invadido, em seus ventres plantados os primeiros caboclos que seriam chamados brasileiros!
1ª VOZ DO CORO: (Vestido de caboclo) A história seguiu seu curso no passo firme dos bandeirantes, As matas sendo tombadas a terra virou um braseiro ficou tudo avermelhado e não pela tinta das Árvores, o pau brasil para além mar mandado o vermelho que aqui ficava era de sangue, sangue de nativo que não sabia viver como escravo!
2ª VOZ DO CORO: (Vestida de Sinhá moça) Outros senhores vieram, com suas senhoras de peles claras, vestidas do tornozelo ao pescoço... tão puras e castas eram as sinhás, tão rudes e crueis como seus senhores!
CORO: (SOM DE ATABAQUES, REPRESENTAM “ARENA CONTA ZUMBI” ) Carcará reconta a história do Arena que a ditadura calou... História de gente negra da luta pela razão, que se parece ao presente pela verdade em questão, pois se trata de uma luta muito linda na verdade: é luta que vence os tempos, luta pela liberdade!
Enquanto ouve-se o canto os sem terra ocupam a parte improdutiva das fazendas Jequitibá e Santa Cruz na altura da nascente do pouso das garças.
CORO: Ave Maria cheia de graça. Olorum é convosco. Bendito é o fruto do vosso ventre. Bendita é a terra que plantamos. Bendito é o fruto que se colhe!
Arauto: Ave Maria, bendita seja. Ave Maria cheia de graça, Olorum.
CORO: Bendito é o trabalho neste campo. Bendita é a água que se bebe. Bendita é a mulher de quem se gosta. Bendito é o amor de nossos filhos!
1ª VOZ DO CORO: (AINDA DE CABOCLO) E esse é um pedacinho da história, escrita com muito sangue de índio/nativo, suor do povo africano e também lágrimas das boas almas de Portugal... e lá se vão pra mais de 500 anos, poucos cercaram as terras, muitos foram deixados de fora, e tão por aí, prontos pra tomar de volta o quinhão que lhes foi usurpado.
Coro: cantam e dançam ao redor do arauto, como que a querer devorá-la. Musica Carcará de João do Vale).
Carcará
“Lá no sertão
É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro malvado
Tem o bico volteado que nem gavião
Carcará
Quando vê roça queimada
Sai voando, cantando,
Carcará
Vai fazer sua caçada
Carcará come inté cobra queimada
Quando chega o tempo da invernada
O sertão não tem mais roça queimada
Carcará mesmo assim num passa fome
Os burrego que nasce na baixada
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome
Carcará
Mais coragem do que home
Carcará
Pega, mata e come
Carcará é malvado, é valentão
É a águia de lá do meu sertão
Os burrego novinho num pode andá
Ele puxa o umbigo inté matá
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome
Carcará
Mais coragem do que home
Carcará!”
Adquira o livro : 11 968380630
* Herança Mal Dita é uma obra de criação fictícia, no entanto, aborda fatos históricos do Brasil e do mundo do século XX e início do XXI. Tem como pano de fundo o enfrentamento ao colonialismo capitalista, à herança do patriarcado racista, homofóbico e misógino. A trama apresenta uma cronologia reversa, numa forma não linear em que o desfecho é apresentado primeiro, seguido da apresentação, complicação e clímax.
"... Lúcia Peixoto nos oferece mais um presente, a novela: "Herança Mal Dita" um texto literário impecável, cativante e instigante, que mescla saberes de filosofia, sociologia, política, literatura, religião, permeados pela leveza do amor e a dureza das relações humanas." Ana Valim
* Herança Mal Dita é uma obra de criação fictícia, no entanto, aborda fatos históricos do Brasil e do mundo do século XX e início do XXI. Tem como pano de fundo o enfrentamento ao colonialismo capitalista, à herança do patriarcado racista, homofóbico e misógino. A trama apresenta uma cronologia reversa, numa forma não linear em que o desfecho é apresentado primeiro, seguido da apresentação, complicação e clímax.
"... Lúcia Peixoto nos oferece mais um presente, a novela: "Herança Mal Dita" um texto literário impecável, cativante e instigante, que mescla saberes de filosofia, sociologia, política, literatura, religião, permeados pela leveza do amor e a dureza das relações humanas." Ana Valim
Lúcia Peixoto
Filósofa, Arteterapeuta, Artesã, Profa de Filosofia
Graduada em Ciências da Religião,
Licenciada e Pós graduada em Ensino da Filosofia,
com Especialização em História e Arteterapia
Siga nas redes sociais:
X: @LuciaFilosofa50
Instagram: @profa.luciapeixoto
Facebook: https://www.facebook.com/ProfLuciaPeixoto
Tiktok: lucia.p50


Comentários
Postar um comentário