Ao Meu pai João: Inspiração, referência ética e social.

Hoje 09 de Agosto de 2026 "Dia dos pais", ofereço ao meu pai João (in memoriam)  minha existência, contada em verso e prosa no livro "O cinza do Meu Azul e Rosa*. Lindamente prefáciado pole querido Professor Aldo Santos.

"...A narrativa percorre cronologicamente os primeiros momentos da vida da autora, resgatando lembranças familiares e destacando, de modo particular, a presença marcante da figura paterna. João, seu pai, aparece como referência ética e social, enquanto Aurora — cujo nome evoca o amanhecer — simboliza o horizonte de afetos e sentidos que iluminam a narrativa. Não por acaso, a autora relembra o significado de seu próprio nome: Lúcia, derivado do latim lux, isto é, luz. A simbologia da luz atravessa toda a obra, indicando não apenas identidade, mas também vocação para iluminar experiências, memórias e reflexões..."

"... A influência do meio social e da militância comunitária de seu pai nas Comunidades Eclesiais de Base marcou profundamente sua percepção de mundo. A experiência concreta da pobreza e das desigualdades sociais aparece no livro com intensidade emocional, sobretudo quando a autora recorda o impacto causado pelo assassinato de Santo Dias, episódio que se torna um marco em sua consciência política e ética diante das injustiças do mundo... (Aldo Santos, Prefácio de O Cinza do Meu Mundo Azul e Rosa)

"... As lembranças desses tempos me fazem chorar, como meu pai chorou naquele dia. Me sinto outra vez menina despercebida aos olhares adultos (aflitos, fatigados) a brincar na tulha cheia de café. Aquele foi um ano glorioso, colheita farta. No Natal teria guaraná e frango assado. Minha inocência de menina foi de súbito usurpada. Uma lágrima vi misturar-se ao suor do rosto avermelhado, queimado pelo sol, aquele rosto tão belo de migrante nordestino, mistura de africano, holandês e nativo brasileiro... Ah! Que saudades de beijar seu rosto, meu pai João. (que partiu tão cedo para os Elíseos Campos). O motivo daquela lágrima? A consciência de quem era explorado. Com qual indignação ouvi meu pai dizer que ele não era dono do fruto do seu trabalho, não possuía o título das terras que de sol a sol seu suor regava. Éramos só mais uma família naquela colônia de meeiros, metade de toda a safra (os melhores grãos) era reservada ao proprietário.

    Pensei eu, não chore, papai querido, ainda tens sua metade! Engano de quem não entendia as regras daquele jogo nefasto. À metade do patrão vi sendo juntados mais 10% das sacas de café (para pagar os gastos da produção) e mais 20% (Adiantamento feito pelo proprietário no decorrer do ano, dinheiro que pagara a farinha, o óleo, o macarrão dos domingos e o sal que dava gosto à vida). Nossa subsistência era graças à brecha nas regras que permitia criar galinha, pescar no rio e até plantar mandioca e coletar as frutas dos pomares que cercavam nossas casas. Eu mal estava alfabetizada, não entendia a tabuada, mas aquela matemática “da tulha esvaziada” essa eu nunca mais esqueci.” Minhas lembranças foram corroboradas mais tarde pela escrita militante do Professor Tonhão. Obra que me foi dada de presente pelo meu camarada Alfredo dos Santos (rendo aqui homenagens póstumas a ambos, já residentes dos jardins do Elíseos Campos) Alfredinho e Professor Tonhão que me desafiaram a pôr em letras meus sentimentos. Presente!

    Aquele ano passou rápido, com a criançada correndo pelo quintal, meu pai trabalhando de sol a sol para replantar o cafezal queimado pela geada, intercalando com o cultivo de hortaliças, feijão e amendoim para nossa subsistência. Contávamos com ajuda do tio Olímpio o nome Olímpio, de origem grega, significa "pertencente ao Monte Olimpo" ou "celestial". O Monte Olimpoiii é, na mitologia grega, a morada dos deuses, o que confere ao nome uma conotação de divindade e grandiosidade. Irmão de minha mãe, o tio Olímpio é um anjo de guarda, nunca se casou, não teve filhos, não constituiu família e nos adotou. Nos tempos mais duros vinha morar conosco e assim ajudava a aliviar a labuta principalmente das minhas irmãs mais velhas, Cida e Jacira, que antes mesmo de aprender o Be a bá aprenderam o caminho da roça. Utopia, música católica do Pe. Zezinho, sintetiza bem meu sentimento em relação a esses tempos.



Gratidão Pai João agraciado por Deus sua benção minha mãe Aurora deusa do amanhecer,Tio Olimpio pai do coração, saudade eterna!

Utopia
“Das muitas coisas
Do meu tempo de criança 
Guardo vivo na lembrança
O aconchego do meu lar
No fim da tarde
Quando tudo se aquietava
A família se ajeitava
Lá no alpendre a conversar
Meus pais não tinham
Nem escola, nem dinheiro
Todo dia, o ano inteiro
Trabalhavam sem parar
Faltava tudo
Mas a gente nem ligava
O importante não faltava
Seu sorriso, seu olhar
Eu tantas vezes
Vi meu pai chegar cansado
Mas aquilo era sagrado
Um por um ele afagava
E perguntava
Quem fizera estripulia
E mamãe nos defendia
Tudo aos poucos se ajeitava
O sol se punha
A viola alguém trazia
Todo mundo então pedia
Pro papai cantar com a gente
Desafinado
Meio rouco e voz cansada
Ele cantava mil toadas
Seu olhar ao sol poente
Passou o tempo
Hoje eu vejo a maravilha
De se ter uma família
Quando tantos não a tem
Agora falam
Do desquite e do divórcio
O amor virou consórcio
Compromisso de ninguém
E há tantos filhos
Que bem mais do que um palácio
Gostariam de um abraço
E do carinho entre seus pais
Se os pais amassem
O divórcio não viria
Chamam a isso de utopia
Eu a isso chamo paz”.

* Sinopse: Em “O Cinza do Meu Mundo Azul e Rosa”, acompanhamos a trajetória de Lúcia Peixoto, uma menina do interior que cresce entre o afeto familiar e as durezas da vida no campo. Em meio a memórias, perdas e descobertas, sua história revela as marcas da desigualdade e o despertar de uma consciência crítica. Sensível e reflexiva, a obra transforma experiências pessoais em um retrato profundo do Brasil e da condição humana, onde a beleza e a dor coexistem nos tons reais da vida.


Lançamento Previsto para o dia 06/09/2026 na Bienal do livro.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Versões de mim: (Autor Luis Fernando Veríssimo)

Miniconto: Girassóis!

Miniconto de Segunda...