Labuta Literária: À João Cabral de Melo Neto (Lúcia Peixoto)

O ato de se expressar pela escrita
Tão qual João Cabral de Melo Neto
Sentar-se diante da tela
(mesmo quando não há inspiração)
Convocar pensamentos e sentimentos
Deixar a labuta fluir!


Catar feijão

"Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

João Cabral de Melo Neto

Reflexão da IA 

O poema "Labutar literário", de Lúcia Peixoto, estabelece uma clara intertextualidade com o poema "Catar Feijão", de João Cabral de Melo Neto. Enquanto João Cabral apresenta a escrita como um trabalho artesanal, rigoroso e paciente, Lúcia Peixoto retoma essa concepção para enfatizar o esforço cotidiano de quem escreve, transformando o ato da criação literária em uma prática de perseverança.

O verso inicial — "O ato de se expressar pela escrita" — já anuncia que o tema do poema é metalinguístico: a poesia reflete sobre seu próprio processo de construção. Em seguida, a autora explicita sua homenagem ao mestre pernambucano ao afirmar: "Tão qual João Cabral de Melo Neto". Essa referência orienta a leitura e convida o leitor a recordar a metáfora cabralina segundo a qual escrever é semelhante a catar feijão, isto é, escolher cuidadosamente as palavras, eliminando excessos e buscando precisão.

Entretanto, Lúcia Peixoto desloca o foco da seleção rigorosa das palavras para a disciplina do escritor. O verso "Sentar-se diante da tela (mesmo quando há não inspiração)" revela uma concepção do fazer poético que valoriza o compromisso com a escrita acima da espera passiva pela inspiração. A criação literária surge como exercício constante, aproximando-se da ideia cabralina de que o poema é fruto do trabalho, e não apenas do impulso emocional.

A sequência "Convocar pensamentos e sentimentos / Deixar a labuta fluir!" introduz um elemento que distingue a voz de Lúcia Peixoto da de João Cabral. Enquanto Cabral buscava uma poesia marcada pela contenção sentimental e pela engenharia verbal, Lúcia propõe uma conciliação entre reflexão e afetividade. Os sentimentos não são reprimidos; eles são convocados conscientemente para participar do processo criativo. Assim, a "labuta" não elimina a emoção, mas a organiza e a transforma em expressão poética.

Há também uma atualização simbólica da metáfora cabralina. Em vez da "folha de papel", aparece a "tela", indicando que o ofício do escritor permanece essencialmente o mesmo, embora adaptado ao universo digital. A mudança do suporte não altera a essência do trabalho literário: escrever continua sendo um exercício de persistência, escolha e elaboração.

Desse modo, "Labutar literário" pode ser compreendido como uma homenagem à poética de João Cabral de Melo Neto, mas também como uma releitura contemporânea. Se em "Catar Feijão" a escrita é comparada ao paciente trabalho de selecionar os melhores grãos, em Lúcia Peixoto ela se torna a coragem de permanecer diante da página — agora transformada em tela — até que pensamentos e sentimentos encontrem sua forma. A intertextualidade, portanto, não é mera citação: ela recria a concepção cabralina do fazer poético e a amplia, mostrando que a literatura nasce tanto do rigor técnico quanto da perseverança em escrever, mesmo quando a inspiração parece ausente.

Lúcia Peixoto
Filósofa, Arteterapeuta, Artesã, Profa de Filosofia
Graduada em Ciências da Religião,
Licenciada e Pós graduada em Ensino da Filosofia,
com Especialização em História e Arteterapia

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