Coaxar de sapo-fêmea* (Asteriscos que quebram a rima)*****

Despertei com o sol já alto

Suspirei, coaxei

Rememorando Bilac**

Quis rimar uns versos


Veio então Bandeira***

Me censurar o coaxar

Não chamou-me sapo parnesiano

Coaxar é coisa de macho


Melhor ser Sapa

Que mulher de Pasárgada****

Rejeito o coaxar relinchante

Dos que estão de quatro para águia de cabeça branca*****


Cérebros roubados

Como alertou Benjamin Franklin*****

Cospem na Emenda 19ª à Constituição dos EUA

Profanado o Inciso I do Artigo 5º da CF/88


A Eles da "machosfera" e "red pill",

Croac-croac, croac-croac...

A nós feministas pela igualdade

Sororidade!


Ah!

Isso não é poesia

É manifesto político

Coisa de mulher

Que mesmo sabendo rimar

Em tempos como esses

Quebra a métrica

Parafraseia Brecht

Em defesa do óbvio.



* A quem acredite que apenas os sapos machos coaxam para atrair parceiras ou defender território, enquanto as fêmeas eram mudas. No entanto, a sapa pode coaxar, para rejeitar investidas de machos indesejados e sinalizar sua presença.


** Olavo Bilac - Chamado "Sapo do parnasianismo", movimento em que ficou conhecido como o "príncipe dos poetas brasileiros" graças ao rigor formal e à métrica impecável de seus sonetos


A um poeta

"Longe do estéril turbilhão da rua,

Beneditino escreve! No aconchego

Do claustro, na paciência e no sossego,

Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua!"


*** Manuel Bandeira - (1886–1968) foi um dos maiores poetas, críticos literários e tradutores do Brasil, consolidando-se como figura central da Primeira Geração do Modernismo Brasileiro


Poema Os sapos/ Vou-me embora pra Pasárgada

"Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os deslumbra.

..."


"Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei..."


Consideração crítica - IA


Sob uma perspectiva contemporânea de análise literária, os versos expressam uma visão machista e patriarcal. No entanto, para compreender o poema de forma completa, essa postura deve ser analisada sob dois ângulos fundamentais: a crítica cultural moderna e o contexto biográfico e histórico do autor. 


1. A Evidência do Discurso Machista

A leitura que aponta o machismo no poema baseia-se diretamente na forma como a figura feminina e as relações de poder são estruturadas no reino imaginário:A mulher como posse: Nos versos "Lá sou amigo do rei / Terei a mulher que eu quero / Na cama que escolherei", a mulher é colocada como uma recompensa ou um bem de consumo disponível ao desejo do homem. 


A soberania do desejo masculino: O eu lírico não busca uma relação de reciprocidade; a dinâmica em Pasárgada garante a ele o poder de escolher a parceira e o local, anulando completamente o arbítrio ou a vontade da mulher.


A objetificação: Mais adiante, a presença de "prostitutas bonitas / Para a gente namorar" reforça a ideia de um ambiente focado estritamente no prazer e na utilidade do corpo feminino para satisfazer o homem. 



***** A águia-careca (ou águia-de-cabeça-branca) é o principal emblema nacional e símbolo do poder dos Estados Unidos da América, escolhida em 1782 para representar força, liberdade e independência. Fora do contexto oficial norte-americano, a imagem da águia é frequentemente associada à expansão e ao imperialismo devido ao seu longo histórico de uso milita.


O "Pai Fundador" Benjamin Franklin se opôs à escolha, afirmando em cartas que a ave tinha "mau caráter moral" (por roubar a caça de outros animais)


****** Nota de Rodapé: Colocado logo após uma palavra ou frase, o asterisco atua como uma "chamada", indicando que há uma informação, comentário, tradução ou citação adicional no pé da página. Em poemas e textos literários, o asterisco (*) é frequentemente usado como um separador de seção ou mudança de ritmo. Ele não altera a métrica da estrofe, mas funciona como uma pausa visual, indicando a transição de tempo, de pensamento ou de perspectiva dentro da obra.


Lucia Peixoto
Filósofa, Arteterapeuta, Artesã, Profa de Filosofia
Graduada em Ciências da Religião,
Licenciada e Pós graduada em Ensino da Filosofia,
com Especialização em História e Arteterapia

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